Teu marido realmente te ajuda?

Teu marido realmente te ajuda?

Ainda bem que teu marido te ajuda, né? Durante anos essa frase, repetida nos mais variados lugares, me atordoava e aumentava minha culpa. A técnica do posto de saúde, a pediatra, a professora da escolinha, minhas colegas de trabalho, minha mãe, repetiam como um mantra o quanto eu deveria ser grata por ter um cônjuge que me ajudava. Alguém que se importava com os filhos e conhecia a rotina das crianças, levava para vacinar, sabia o que a filha comia e até aprendera como colocar uma meia-calça. Gratidão era o que eu deveria sentir. Eu havia tirado a sorte grande e reproduzido com uma raridade da espécime masculina.

Sim, meu marido me ajuda, sou uma mulher feliz. Ele faz a bebê dormir, sabe trocar fralda e lava os pratos quando eu peço. Quando eu peço ele faz qualquer coisa e nunca reclama. A única pessoa que reclama sou eu e como reclamo. Reclamo o tempo todo como se eu fizesse tudo sozinha. Sou uma pessoa horrível e mal-humorada. Não sou mais a pessoa divertida, a namorada disposta, a pessoa animada que era há um ano, dois atrás. Me tornei a megera, a chata, a reclamona. Ele reclama? Nem disso ele reclama. Eu sou uma mulher de muita muita muita sorte. O ano para mim é 2008, mas pode ser 2016, 17  ou 18, pois essa história se repete. Primeiro ano de um bebê, os dois trabalhando, fazendo faculdade, aprendendo a se relacionar dividindo casa. Eu sempre cansada, sempre com o sono entrecortado, fazendo faculdade à noite, trabalhando em horário integral, lustrando móveis no sábado, limpando o banheiro no domingo, fazendo mercado, comprando fraldas, levando roupa para estender na casa da mãe, criando arte para aniversário, calculando o orçamento da casa, definindo as regras de convivência, marcando pediatra, definindo cardápio e a lista de compras entre uma coisa e outra, no ônibus para buscar o bebê ou enquanto amamentava e me culpava por não estar dando conta de ser mãe. Eu tinha um bom parceiro, todos me diziam, e eu concordava; entretanto, eu sentia que eu sempre estava mais sobrecarregada, atordoada e enlouquecida com tudo. Ele tentava entender, eu tentava explicar. Ele não conseguia entender, eu não conseguia explicar. Brigávamos, ajustávamos algumas tarefas e seguíamos até a próxima D.R..

Quando eu falava com amigas ou familiares que já haviam passado por relações análogas ao casamento heterossexual a frase era sempre a mesma:  “ele é homem e homem é assim”.Não adianta, tens o melhor possível de um parceiro masculino.  

Eu não conseguia admitir que alguém extremamente inteligente teria capacidades tolhidas por ter um pênis. Por que eu precisava dizer que era necessário ir ao supermercado ou lembrar que o lixo precisava ser tirado ou parecia a única responsável por comprar roupas para a criança? Ele não havia sido criado para cuidar da casa? Beleza, eu também não. Entretanto, a minha inabilidade era olhada com crítica e a dele com condescendência, chegava a ser bonitinho ver ele tentando. Eu me sentia injustiçada e injusta ao mesmo tempo e sentia uma grande insatisfação que não conseguia traduzir racionalmente.

Nesta época eu não dominava o termo divisão sexual do trabalho. Não conseguia olhar para a professora da minha filha e dizer: Mana, esse teu conceito é fruto de construção social, acreditas que ele está fazendo mais do que deve porque incutiram na tua cabeça, desde que tu nasceste, que trabalho de cuidado e reprodutivo é nato da mulher, nasce com ela a habilidade. Isso é tão forte que, mesmo quando vais para o trabalho produtivo, tende a escolher o cuidado e nem percebes. Moça, se sabes te virar melhor com a casa é porque, quando começaste a brincar te deram um ferro de passar roupas, umas panelinhas e uma boneca que imitava um recém-nascido. Foste preparada desde teu nascimento para isso, logo o cuidado te parece nato. Logo, concordava com a professora com um sorrisinho amarelo e voltava para casa em silêncio pensando que eu havia vindo com defeito de fábrica. Ao invés do dom do cuidado, havia nascido com o dom da reclamação. Nessa época não tinha vivência, segurança e teoria para olhar para o cara que morava comigo e dizer: Meu, tu divide a parte tarefeiro e isso é ótimo, mas assim.. quero divisão da parte administrador também. Não quero ser a única responsável pelo projeto.  Ser gestor de projetos e processos é tarefa que exige empenho, observação, organização, raciocínio rápido e conhecimento. Quando o projeto é uma vida a ser cuidada  – que não existe fechar às 18h ou sair para um feriadão e só retornar na terça-feira – é um trabalho extremamente pesado e quero divisão disso também. O trabalho reprodutivo, privado e de cuidado que é historicamente destinado às mulheres e considerado nato e, portanto, sem valor, deve ser revisto dentro das nossas casas e relações.

Quando assumimos que o cara que mora conosco nos ajuda e isso é ótimo, estamos assumindo que somos administradoras da casa e temos um ajudante que executa parte das tarefas, e que isso é justo e ótimo. E tudo bem se para você esse arranjo realmente for justo e ótimo, cada uma conhece seu contexto. Porém, se não for, tudo bem, você não é louca e uma simples reclamona. Possivelmente esteja exausta e talvez nem consiga medir o volume de ocupação que a casa e os filhos te causem. Montar cronogramas que não podem dar errado, pensar em tudo que promove a saúde, bem estar, segurança e educação de uma família é trabalho, são muitas tarefas e organizações mentais para manter alguém ocupado o dia inteiro. São fazeres cansativos e que conseguem ser ainda mais invisíveis que as tarefas domésticas de execução. O trabalho que envolve a casa e os filhos é real, consome tempo, gera angústia e cansa. Não é algo que é executado e pensado sem qualquer esforço pelas mulheres porque faz parte da nossa natureza.

A melhor forma de dividir o trabalho reprodutivo, de cuidado e produtivo é ímpar para cada casal ou família; porém, se não repensarmos e desconstruirmos velhos conceitos e divisões por gênero, acabaremos reproduzindo sem pensar este mesmo modelo, que frequentemente é extremamente injusto para as mulheres. Se ganhamos o espaço público (ainda que ganhando menos), é hora deles ganharem o privado. Porque é foda trabalhar oito horas fora de casa e ser, no mínimo, responsável pelo projeto da vida de uma criança, uma família, um casal.

AuthorRe Zardin

Acredito na educação como aliada na desconstrução de papeis de gênero e na necessidade de políticas públicas para a garantia de direitos humanos. Nasci no início dos anos 80, adoro ouvir pessoas e suas diversidades. Na maternidade descobri o feminismo como meu foco na luta social.

19 replies to Teu marido realmente te ajuda?

  1. Eu entendo perfeitamente esse lado feminino, vejo milhões de casos assim e por vezes até mesmo a minha casa é refém dessa cultura.
    Mas a contrapartida que mais me chateia no relacionamento é a mulher ter sido criada para ser feliz para sempre no exato momento que se casa.
    Essa bobagem repetida mil vezes em histórias, contos, filmes e novelas, eu vejo trazer uma frustração absurda, principalmente para uma parte grande das mulheres, que descobre que casar não torna ninguém feliz para sempre.

    • O casamento era uma necessidade para sobrevivência feminina. A autonomia feminina é algo extremamente recente, inclusive na legislação brasileira. (Apenas em 2002 o Código Civil retira a perda da virgindade como justificativa para anulação do casamento e perda de herança para as filhas.) Nesse contexto transformar o casamento em algo que trará felicidade e extremamente desejado é necessário para a manutenção do sistema e controle feminino e a indústria do entretenimento está aí para vender, se a promessa de felicidade vende, será esse o mote.
      Felizmente, parte da minha geração já não foi criada pela família para casar, apesar da termos sido criadas ouvindo sobre os príncipes heroicos que salvavam as princesas babacas e traziam a felicidade. Quanto a isso a própria indústria do entretenimento já percebeu que as meninas atuais não estão comprando tão bem velhos conceitos e mesmo as princesas da Disney começam a ter autonomia e a figura do príncipe desaparece de alguns filmes.
      Essa discussão vem sendo feita e, pessoalmente, acredito que em parte por que essa fantasia passou a ser incomoda para os homens também. Porém, não vamos nos iludir, o desejo do bom provedor passa para o príncipe que traz a felicidade e deste para o Rodrigo Hilbert. Assim como a boa esposa calada e submissa passa para a gostosa que não envelhece, é fogosa e não se importa com o chopinho enquanto cuida sozinha das crianças. As expectativas e ilusões vão sendo atualizadas e construir relações reais, convivendo com a frustração do outro é papel diário de todos nós.

    • Acho que temos um longo caminho em desmistificar o casamento nesse formato de cultura patriarcal. Além dessa imagem que iguala casamento a felicidade, também temos que discutir qual o papel que o homem assume nesse espaço. Muitas vezes, vejo que há uma certa infantilização por parte deles, que acabam enxergando a mulher não como uma parceira para compartilhar as tarefas, mas como uma segunda mãe cujo dever é organizar a casa. Enfim, muitas representações que precisam ser desconstruídas.

  2. “Se ganhamos o espaço público (ainda que ganhando menos), é hora deles ganharem o privado”

    A Renata pelo jeito aprendeu a mitar nas postagens com o LF. Só pode.

    Parece trivial, mas vejam a quantidade de gente que só escreve m… mesmo tendo, sei lá, companhia de gente culta e instruída. E que poderia influenciar.

    • Eu entendi que a tua intenção foi elogiosa. Sou fã do LF desde as aulas de redação I e das nossas discussões acaloradas em blogs. Porém, fiquei na dúvida se aprendi com ele porque ele é o homem da relação ou simplesmente porque não conhecias meus textos? Rs

      • Única e exclusivamente pelo fato dele ser homem, acredito que não 🙂

  3. Que conste que isso é um elogio ao texto, viu?

  4. Excelente, Renata! Na minha “época reprodutiva” nem passava pela cabeça discutir essa questão. Achava bem bom que meu marido dividia tarefas de manutenção da casa comigo, tipo eu cozinhava e ele limpava banheiro – cada um com o espaço onde tinha menor dificuldade. Logo depois a questão financeira deu uma melhorada e foi possível pagarmos uma trabalhadora doméstica, a partir de então tudo que se relacionava a manutenção da moradia, filhos, etc passou a ser exclusividade minha ou da funcionária. Acho que foi aí que o casamento começou a naufragar kkkk

    • Orgulho imenso te ter aqui. Se posso fazer essa discussão é porque muitas outras foram feitas na minha criação. Na tua “época reprodutiva” ter um tarefeiro em casa era um grande diferencial e, infelizmente, a maior parte de nós ainda vê assim e vamos seguindo, nos desgastando e cansando cada dia mais até nos libertarmos no divórcio. Porém, ainda assim uma libertação parcial, pois continuamos sendo as grandes responsáveis pelos filhos em comum… Enfim, espero que sigas por aqui.

  5. Texto muito bem colocado. Resume o contidiano de muitas mulheres, inclusive o meu. Retrato de uma sociedade machista, que dá muitos direitos ao homens e muitos deveres as mulheres. Acredito que mudanças vem acontecendo com o passar dos tempos, mas muito ainda a se aprimorado, adequado e discutido. Bela reflexão!

    • Que bom te ver aqui, Cláudia. Espero que goste e siga conosco. Para nós que; além de mulheres, somos mães de mulheres, a reflexão acaba sendo constante. Se existem pontos que optamos por não mexer em nossas vidas, e é direito nosso não termos paciência e força diária para lutar contra essa estrutura, é bom termos claro para qualificarmos o que passamos para nossas meninas.

  6. Excelente texto Re Zardin. De pleno acordo com o exaustivo terafario administrativo de uma familia, que envolve muito mais do que aparenta. Acredite se quiser, isso acontece tambem entre casais homoafetivos que se apresentam com tarefas “masculinas” e “femininas” dentro de casa. Eh exaustivo. Parabens pela lucidez.

    • O papel de gênero é tão forte que mesmo onde não existe a distinção ela é forjada? Quando conseguiremos nos relacionar apenas com pessoas?

  7. Texto incrível, válido para relações hÉteros bem como quaisquer relações onde haja um home, dois, três ou mais…
    AMEY <3

    • Ótima essa colocação. Nos lembra que o machismo estrutural, e papeis de gênero postos, é um problema que afeta a todos de alguma forma e que a luta contra o machismo não deve ser apenas feminina.

  8. Parabéns pelo excelente texto! Me identifiquei muito com o incômodo e estupefação diante das expectativas sociais que encontrei quando me tornei esposa e mãe. A tua maneira de colocar este tema na roda convida a uma reflexão fundamental para a promoção da igualdade em todas as nossas relações. É muito fácil ficarmos distraídos da maneira como naturalizamos, reproduzimos e, principalmente, transmitimos estas prescrições de gênero aos nossos filhos.

    • Andréa, fico bem feliz que tenha gostado do texto. Ele só virou texto devido ao teu incentivo.
      São muitas situações e preconceitos para questionarmos e buscarmos desconstruirmos para termos um dia uma sociedade minimamente igualitária nas questões de gênero. Reflexão e questionamentos constantes são parte desta “construção de descontruções”.

  9. Amei! Texto que define bem muitos relacionamentos dentro de casa, inclusive o meu!
    Sempre ouvi…. ” nossa ele te ajuda até a mudar as crianças?
    Ele da banho?
    Faz mama?
    Ele leva vacinar? (Sim porque se vou junto choro mais que as cria…kkkkk) Não acredito!
    Que sorte a tua!
    Agora já nem entro na conversa quando minhas amigas ou colegas do trabalho estão falando da destreza ( que em alguns casos não existe) do marido que ajuda.
    Porque na maioria das vezes era como se eu fosse um ET, a diferentona que tem um marido que faz o mínimo ( eu acho pelo menos) e daí sei la…. parecia que o que era comum, para mim, para elas era extraordinário..
    Aff..
    Parabéns pelo texto…

    • O bom das relações, Tanara, é que elas podem mudar. Se isso te incomoda, pode ser construído algo diferente. Não precisamos passar a vida como as únicas responsáveis pelos projetos. Abraço

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