E esse tal de Direitos Humanos?

E esse tal de Direitos Humanos?


Para quem trabalha com temáticas relativas aos Direitos Humanos o conceito é tão básico que, muitas vezes, não nos damos conta que talvez tenhamos que discuti-lo e explicitá-lo diariamente para evoluirmos como sociedade. Nos últimos dias, devido a comentários de extrema ignorância e maldade, um jornal colocou a explicação de “o que é direitos humanos” em suas redes sociais. Num primeiro momento pensei: “Em que ponto chegamos?”. Refletindo, não consegui entender que ponto exatamente é esse; porém, se nós queremos que a população entenda conceitos relacionados a equidade, igualdade e a importância de expoentes que lutem por isso, precisamos, sim, começar pelo básico.

Muitos escutam sobre Direitos Humanos no rádio e na TV e não tem conhecimentos sobre o que se trata. Por desconhecimento e associação ao tipo de notícias que costumam trazer o tema – especialmente programas sensacionalistas de jornalismo policial – formam uma ideia equivocada, de que Direitos Humanos seria sempre associado a manifestações ou determinadas posições políticas. Outra relação equivocada – não por associação, mas por manipulação explícita – é devida às fakenews existentes, em volume assustador. Não por acaso, com frequência essas notícias falsas têm como alvo políticos que carregam como bandeira a defesa dos direitos humanos.

Os direitos humanos aparecem, em diferentes momentos da humanidade, em documentos que pretendem garantir os direitos mínimos dos cidadãos sob a possibilidade de governos autoritários. Os direitos mudam de acordo com a necessidade de garantias e o momento histórico que aquela sociedade vive. O que não muda é o papel deles como garantia para a população, principalmente a mais carente, que não tem as suas garantias pessoais devido a nascimento, bens, religião. Atualmente, a Declaração Universal do Direitos Humanos é assinada por 192 países e serve como base para constituições e tratados internacionais. Ela é composta por 30 artigos. E está presente na Constituição Brasileira.

Vejam que louco! Antes eu comentei que alguns políticos carregam a bandeira dos Direitos Humanos, e que Direitos Humanos são os direitos mínimos de um ser humano. Porém, se a nossa Constituição, a carta maior do país, traz os Direitos Humanos em seu texto e os políticos teoricamente são representantes dos cidadãos, esses direitos não deveriam ser defendidos por todos que buscam representar a população? Sem dúvida, deveriam. Não são e, provavelmente, nunca serão.

Em nosso país, boa parte do povo não se enxerga como povo, e isso ajuda muito na confusão. Não tenho claro como isso se constituiu; porém, vemos que a consciência de classe e situação real que se encontra dentro do sistema não são facilmente percebidas pelo cidadão médio. Isso faz com que pessoas, com filhos adolescentes pardos, moradoras de zonas periféricas, digam que “bandido bom é bandido morto” e que a repressão policial “deve ser forte mesmo”. Obviamente sem perceber que esse discurso legitima uma ação violenta – e quiçá mortal – da polícia junto a seus filhos, em uma batida equivocada em que um capuz escondia o rosto e já era. Era um estudante voltando para casa, mas a polícia achou que era bandido e “bandido tem que levar bala”, não é isso, minha senhora?

Crianças mortas pelo estado, adolescentes violadas, LGBTs sem seus direitos básicos respeitados. Não é à toa que os defensores dos Direitos Humanos aparecem quando são envolvidos negros, LGBTs, crianças, mulheres, pessoas com deficiência. As populações mais vulneráveis são as que mais precisam da garantia do mínimo.

Quem reproduz discursos prontos muitas vezes não percebe que, quando se diz que é “direito dos Manos” está se abrindo espaço para que os direitos básicos não sejam respeitados. Os seus, dos seus filhos e filhas, do seu cônjuge. É preciso que as pessoas percebam que não há uma plaquinha “cidadão de bem” na testa de ninguém, e que todos podem se encontrar em uma situação de vulnerabilidade. Se não existe empatia pelo outro, que se entenda que você também é o outro.

AuthorRe Zardin

Acredito na educação como aliada na desconstrução de papeis de gênero e na necessidade de políticas públicas para a garantia de direitos humanos. Nasci no início dos anos 80, adoro ouvir pessoas e suas diversidades. Na maternidade descobri o feminismo como meu foco na luta social.

8 replies to E esse tal de Direitos Humanos?

  1. Maravilhoso, Renata! Torcendo para que muitas pessoas leiam e entendam o assunto. E principalmente para que parem de falar bobagem mas redes sociais.

    • Parar não vão, mas se meia dúzia repensar já estou satisfeita.😉

  2. Parabens pelo brilhante e bem escrito texto! Uma aula, obrigada…

    • Obrigada, Taissa.

  3. Texto maravilhoso!!! Você traz uma visão sã dos direitos humanos, e que a sociedade não tem!!! Muitas pessoas são “contrárias” aos defensores dos direitos humanos (sim!! Pasmem!) porque essas “pessoas” defendem os bandidos e estupradores… É isso que a mídia quer passar, a seletividade das informações, as meias verdades… Parabéns querida, sou tua fã!

    • Sim, Ana Cristina, me assustei com o que li na última semana. Estou acostumada a ver ataques; porém, nos últimos dias, no contexto , foi muito angustiante. Esse texto acabou saindo por isso. Eu precisei desabafar.

  4. Se reproduz discurso pronto, é porque não tem capacidade ou vontade de pensar. Ou ainda não quer entender que a realidade bem explicada passa bem longe de suas “teses”.

    É muito mais fácil xingar e partir para a ignorância do que admitir que a realidade é complexa. E que ele tem boa parte da culpa.

    • A preguiça mental é evidente; porém, acredito que parte dos que reproduzem discursos não chegam a ter uma “tese” própria. Vão comprando ideias, discursos sem refletir a quem interessam ou quais consequências em suas vidas.

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