Feminista com ou sem carteirinha

Feminista com ou sem carteirinha

Eu sou feminista. Dizer essa frase pela primeira vez, sozinha, com a casa dormindo, em um sábado pela manhã, foi a conclusão de uma etapa solitária, extremamente individual. Me apropriar do termo e tomá-lo para mim levou anos de desconstrução e reconstrução. Desconstrução do imaginário, do meu imaginário ao menos, de que feministas odeiam homens, têm pelos longos, são prepotentes, se manifestam sem roupa e estão sempre de mau humor.

Com essa imagem na minha cabeça, trabalhar por igualdade e equidade entre os gêneros, discutir desigualdades salariais, divisão de tarefas em casa, liberdade reprodutiva ou espaços de poder era mato. Nada me redimiria da minha adoração por maquiagens ou sapatos de bico fino. Era como se houvesse uma espécie de inquisição que me descobriria uma fraude. Para ganhar a carteirinha, eu passaria por provas, testes e em algum momento minha requisição de pertencimento “ao clube” seria negada, pois descobririam minha coleção de batons ou avaliariam que minha posição sexual preferida não condiz com a vida sexual de uma feminista de verdade.

Se por um lado eu tinha certeza que eu teria minha requisição negada, por outro tinha sérias dúvidas se estava realmente interessada em fazer parte disso. Se os pelos poderiam não ser um grande entrave no meu batismo, estar sempre mau humorada certamente não era um desejo. Então, era mais fácil não me denominar nada e seguir problematizando as desigualdades no meu canto, sem me sentir pertencente.

Acompanhar mulheres feministas que fugiam do estereótipo que eu tinha em minha mente me ajudou a perceber que sim, eu poderia me denominar feminista. Acompanhar discussões e manifestações de pequenos grupos que pregam um movimento que eu considero um tanto excludente e elitista me trouxe a certeza da necessidade de me assumir e sair do armário. Percebi que mulheres que vivem as discussões feministas assumindo outras nomenclaturas, que trabalham no seu dia-a-dia pelo empoderamento de outras, mulheres que estão dentro de outros movimentos — que lutam pela quebra de outras formas poderosas de opressão –precisam engrossar a voz do movimento feminista, trazer suas vivências práticas no combate a violência e entrar, sim, em certas discussões para ampliar as vozes e formas de falar. Se existem tantas mulheres que se denominam feministas e fazem trabalhos fantásticos, existem tantas outras com trabalhos semelhantes, talvez com menos base teórica, que se referem às outras como “as feministas” ou ainda “as feminazi”.

Se temos a ganhar com a união feminina e a soma de mulheres no movimento, tantos grupos tem a perder. Grupos políticos, financeiros, religiosos…somos a metade da população. Não é à toa a força política e financeira utilizada para calar ou ridicularizar o feminismo. A força que temos é gigante, e capaz de realmente reestruturar a sociedade. Logo, nos darmos nomes e nos identificarmos é importante. Destruir os estereótipos e buscarmos fortalecer o que nos une (que é a maior parte), exercer a sororidade e empatia para aceitar as diferenças, reconhecer privilégios e sempre vigiar para não repetir a opressão sobre quem tem mais camadas opressivas pesando em sua vivência é parte do processo.

Quando nos assumimos parte de algo, que não interessa a muitos ser fortalecido, somos frequentemente questionadas e julgadas por comportamentos individuais que não compartilhamos. Talvez daí venha o mau humor. É preciso muita paciência para não chutar o pau da barraca constantemente. A prepotência juro que não aumentou, luto contra ela desde sempre e até acho que venho melhorando nos últimos anos. Não odeio homens individualmente e até gosto muito de alguns em particular. Quanto aos pelos, realmente, essa semana andei de vestido curto e pelos compridos e, de boa, foi libertador. Ainda não me senti à vontade para me manifestar publicamente sem roupas, mas quem sabe um dia chegue lá.

AuthorRe Zardin

Acredito na educação como aliada na desconstrução de papeis de gênero e na necessidade de políticas públicas para a garantia de direitos humanos. Nasci no início dos anos 80, adoro ouvir pessoas e suas diversidades. Na maternidade descobri o feminismo como meu foco na luta social.

One reply to Feminista com ou sem carteirinha

  1. Bahhhhh excelente!!!

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