Especial maternidades: Mãe solo e negra, um ativismo solitário

Especial maternidades: Mãe solo e negra, um ativismo solitário

Caroline Moreira*

Falar de maternidade solo e feminismo negro é falar de um ativismo totalmente solitário. Busco no coletivo e na força de minhas irmãs de lutas motivos para permanecer lutando e ocupando espaços que não foram feitos para mim nem para meu filho. Ser mãe negra e solo é se acostumar com a sensação de causar encantamento glamourizado quando seu filho é um bebê e de afastamento repentino quando eles vão aprendendo a falar e perdendo a graça. Ser mãe negra e solo é se acostumar com a intromissão das pessoas que sempre estão prontas para querer explicar como seria melhor eu criar meu filho. É se acostumar com a sensação de falsa liberdade, de falta de proteção e vulnerabilidade que as pessoas acham que tenho por eu ter um corpo negro. É transformar a minha não escolha de ter que ser guerreira e falar isso como se fosse um elogio e não uma necessidade gritante, ter que lutar por uma vida digna de trabalho, inclusão e educação do meu filho.

Falar de maternidade solo é falar de uma extrema solidão da mulher negra em todos âmbitos afetivos, financeiros, psicológicos, físicos e mentais. Criar um filho negro não é só educar e ensinar o be-a-bá. É também ensinar e buscar informações perdidas que foram tomadas de nós e desconstruir estereótipos para que meu filho se sinta inserido em uma sociedade que já chama ele de “pretinho do poder”. É ter que aturar as pessoas falarem que “Esse nego vai pegar muitas mulheres”, “vai ser louco por uma loira”, quando acham meu filho bonito, reduzindo sua vida a um relacionamento inter racial heteronormativo e escroto. É presenciar a perversidade das crianças que chamam ele sempre de vilão em suas brincadeiras e não o convidam para nada.

É ver as pessoas olhando pra ele e querendo tocar e opinar sobre o cabelo dele. Em alguns casos, algumas pessoas não querem nem tocar nele porque é negro. Ser mãe negra e solo envolve pensar em um futuro de um menino negro que pode ser confundido com um bandido e ser mais uma estatística do genocídio da juventude negra. Envolve pensar de forma econômica em como educar este filho e fazer ele render com ausência de toda uma família e amigos que sabem exigir uma educação exemplar, mas não me ajudam no processo de educação e acolhimento. Pensar na maternidade solo é pensar na abdicação de viver pra mim para viver por nós. Se culpar, se condenar diariamente porque fiz a escolha de dar um pai ausente pra essa criança tão amada, saber que só meu amor não supre todas necessidades dela, que ela precisa de convívio social e afetividade de sua família, não só em datas festivas. E, além disso, é pensar que todos os olhares de “coitadinha sozinha na vida” são direcionados pra mim.

É tanta coisa pra pensar, analisar, mensurar e falar que quase sempre falta o ar. Pensar nesse tema é um tanto complicado. O Feminismo negro existe desde a escravidão e a sobrevivência pela vida permanece até hoje. A vida da mulher negra é uma vida que muitas vezes parece ter sido esquecida ou não recebe a atenção devida. Não importa se a mulher negra tem ou não tem dinheiro. Suas experiências não são universais e sentidas por todas. Na maioria das vezes, a vida da mulher negra é uma vida de negação, uma vida invisível.

Os negros que negam o amor pra nós e para os nossos filhos são tão vítimas da estrutura sistêmica do racismo quanto nós. Quando eles escolhem aquela mulher sem filho, com corpo dito bonito e a cor não retinta pra não assustar, “Vamos enegrecer aos poucos, não sou obrigado a querer aquela negra gorda periférica tendo tanta mulher por aí”. “Aquela preta gorda periférica não serve pra eu me sentir valorizado, eu preciso ter meu ego inflado e a mais clara e magra pode me dar ares de ser o desconstruído”, mas na verdade estamos todos fodidos. O que ascende socialmente usa da troca de favores dando carro ou um pouco de luxo para a mulher branca querer “esse pretinho”, afinal ele pode bancar e assim ascenderem socialmente juntos, ela achando o máximo ter seu negrão (com seu ticão ou não), aquele homão da porra. Ele se achando o máximo porque a branca do lado mostra ele mais incluído e, na verdade, amor não tem cor, né? E o “blackmoney”, esse dinheiro que não chega na minha mão, o negro pede pra pechinchar “tá caro”, mas quando o vendedor é branco não questiona o valor, porque para ele o que importa é ostentar. Não deram terra, mulher, lugar e agora tudo que ele acha que vai dar poder ele quer. Mas chama a pretinha de “mimizenta”, quer ela as escondidas pra ser seu “lanchinho”, porque afinal o corpo e a bunda da nega não tem igual não é, deve saber mexer como ninguém.

A gente quer o homem negro para ter um relacionamento afrocentrado, idealizado, mas nunca conquistado. E como ficar com homem branco sem recorte racial? Impossível, tu é invisível para ele! Só serviria mesmo pra limpar, mas esse eu quero bem longe tenho até medo que ele roube minha paz. Paz, que paz? Qual paz? Esqueço que sou preta; essa palavra não domina meu lar. Tenho às vezes a impressão, e isso não é inveja, que tenho que entrar em algum outro padrão para poderem me aceitar porque eu queria mesmo assim ter alguém pra amar.

Me deixaram, me deram o presente que se chama filho, o amor verdadeiro derradeiro, aquele que não tem como mensurar. Mas fico às vezes com dó porque não tenho tempo pra brincar com ele. Me dói ver ele brincando sozinho, ele pedindo a minha atenção quando preciso trabalhar, dói ele chamar outras crianças para brincar mas só ouvir “não” dos pais que nunca permitem por achar que não devo ser uma boa mãe pra cuidar. Dói, dói e dói, mas ao mesmo tempo dói demais pensar qual alimento vou dar, juntar aquele dinheiro pra comprar Danoninho enquanto a mãe vegana fica a me recriminar… Na nossa cultura comida é afeto e dar uma guloseima é privilégio. Me surgem mil inquietações, me chamam de “negra drama” mas ninguém deita na minha cama. Eu levanto todo dia, trabalho pro coletivo e ele mesmo me invisibiliza. Mil vezes, penso porque eu não paro de militar, se eu não ganho nada com isso ainda dizem que eu não tenho juízo, que sonho por algo impossível de alcançar. Aí me pergunto: se eu parar qual mundo meu filho vai vivenciar???? Às vezes as militantes pegam um pouco de implicância, afinal não consigo nem passagem para participar de passeata, ou alguém pra cuidar do meu filho de graça, não conheço rede de apoio de mulher preta. E mesmo assim eu ajudo na desconstrução da mulher branca, minha amiga casada com negão com filha ou filho preto, ao mostrar pra ela que não é só de creme de cabelo que temos que falar. Ela reclama desse cara, ele faz merda com ela também e aí às vezes eu penso “antes ela do que eu”. Afinal ela tem estrutura pra poder levar, eu ia mesmo apanhar ou nem estar viva pra contar.

Sério eu não tô exagerando com toda essa solidão e inquietação. Só na minha insônia eu arrumo inspiração pra falar que vou continuar resistindo, pelas que vieram antes, pela minha ancestralidade, pois ela é a única força real que eu sinto, é a minha rede de apoio. Apesar de todos os melodramas, sou privilegiada, pois tenho onde morar. Não temos luxo, mas temos tudo: temos um ao outro com saúde. Isso é uma dádiva e é o suficiente para eu festejar, aceitar e me conformar. A violência contra a mulher negra não é só na ação do homem negro. É soco, é corpo no chão, mesmo sangrando, porque afinal somos “carne barata”. Tem sempre gente em situações piores, mas não consigo dormir pensando que se eu tenho esses monstros todos na minha cabeça imagina quem não tem nem nada pra colocar na mesa. Essa empatia mascarada hoje chamada de “sororidade” pra mim é apenas uma maneira de disfarçar, uma forma de agradar as minhas. Ela é seletiva, irreal e ilusória, pra gente mesmo tentar se enganar que estamos nós por nós, mas na real mesmo estamos todas sós. Aí eu leio Djamila e Conceição pra dar um afago pro meu coração, penso que escassez não pode ser normalizado e só ser saudável é o suficiente pra eu me orgulhar. Esse afago e essa demonstração de carinho quero dar pra aquelas do dia-a-dia que a mídia não mostra: Namibia Dandara, Cássia Serpa, Karin Santiago, Lidiane David, mães pretas solos que nem eu que militam diariamente fora das redes por um mundo melhor pra si e pros seus. Saiba que me orgulho e admiro todas assim como admiro escritoras, atrizes e funcionárias públicas e as da faxina do meu prédio. Meu amor é igual por todas, não consigo selecionar quem mais amar.

Meu amor é real por todas aquelas que mesmo não podendo estar comigo sempre estão comigo na luta diária cada uma no seu cantinho fazendo do seu jeitinho afinal não nos permitiram outro caminho. Ainda vamos ser motivo de orgulho pra nação, afinal já começamos desde sempre a revolução. Quando nos enviaram anjos chamados filhos eles pensaram “deem pra aquelas mulheres da porra elas acham que não vão, mas elas é que darão conta de cumprir sua missão”. Se existe deus, ele é uma mulher preta e mãe solo. Lembro que quando descobri minha gravidez, em nenhum momento consegui romantizar. Foram ecos, consultas, exames, dores sozinhas, book gestante solo. Muitas perguntas de “onde tá o pai”. Fui ler Chico Xavier e nunca esqueço que ele disse que se pudesse daria o nome dele pra todas as mães solos do mundo e que éramos anjos e que viemos pra mudar e transformar. Ele não queria que fosse assim mas não podia fazer nada. Fomos selecionadas com o pacote da força e resiliência a entender o que é a real sobrevivência. Depois que meu filho nasceu, olhava ele o dia todo tinha ali todo amor transbordando, eu só sabia amar… Doía pra amamentar, dormia sentada, vivia zumbi, dormia é mentira nunca mais dormi só cochilei porque pra mim meu filho é um rei. Eu queria dar o melhor reinado para que ele se sentisse sempre amado e cuidado, mas a sociedade não deixa a gente calado. Às vezes ele grita de um lado, parece estar desesperado. Eu grito por dentro: “meu filho nós vamos superar”. Meu coração chora quando ele me pede atenção. Ele já tem 5 anos e eu ainda não consigo aceitar que poderia ser diferente se todos soubessem se respeitar. Espero que as próximas mães solos tenham afeto e carinho e se sintam acolhidas em um ninho onde o frio não possa alcançar e elas saibam que podem conseguir estar onde os sonhos delas ousarem pensar. Quero um mundo melhor pois ser mãe solo não é pra qualquer uma, mas acredito sermos iluminadas pra nessa caminhada. Ter nossos filhos do lado já nos ajuda muito a trilhar esse destino de amor e compaixão. Escrevo da alma porque sou isso desde sempre: sofro mas sorrio todo dia, pois meu filho sempre tem algo pra me ensinar, me tira cada sorriso e orgulho. Hoje entendo porque sou mãe solo, porque a gente veio pra esse mundo pra mudar.

 *Caroline Moreira
Mãe solo, palestrante, digital influencer, militante e ativista. Assessora de intelectuais e artistas negros, produtora e sócia cultural Três Tons. Formada em ciências contábeis.


Ela
nos honrou com a sua contribuição para o nosso “Especial Maternidades”, que inicia hoje e trará textos de diversas realidades desse tema no decorrer desta semana.

3 replies to Especial maternidades: Mãe solo e negra, um ativismo solitário

  1. Caroline, tuas palavras me emocionaram. Não por novidade mas por reconhecer nela o cotidiano de diversas amigas que como tu enfrentam realidade de ser mulher negra e também mães solo. Não é por acaso que foram – e seguem sendo – as mulheres negras que saíram a frente nas lutas por transformação social.

    • Gratidão Mara de coração♥!!!

      • Parabéns, Carol e tenha certeza que os nossos filhos nos enchegarão como uma fortaleza. 💜

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