A (in)decisão de ser mãe

A (in)decisão de ser mãe

À beira dos trinta anos, ainda estou esperando o relógio biológico me avisar quando vai ser a hora de querer ser mãe. Às vezes acredito que vai chegar um dia em que a decisão ficará mais clara na minha cabeça. Seria quase como se um despertador tocasse, me avisando que chegou a hora. Outras vezes, me convenço de que essa história de ficar esperando por uma vontade biológica é balela, uma lenda dessas que circulam nos discursos do senso comum sobre maternidade.

Como muitas mulheres da minha geração, a vontade de ser mãe não foi algo que nasceu comigo. As minhas experiências e a construção da minha identidade também não me aproximaram desse universo da maternidade, que parece ser predestinado ou “algo certo” para algumas mulheres. Acho até que as coisas seriam muito mais fáceis se eu já soubesse de antemão se quero ou não quero ser mãe. Sem dúvidas, sabe? Ao invés disso, fico sempre no meio do caminho. E é aí que surgem as reflexões e problematizações que acabam (nesse caso) só me atrapalhando.

A ideia de ser mãe me assusta e me maravilha ao mesmo tempo. Pelos relatos de mulheres já mães, a experiência é transformadora. Ser mãe, segundo elas, muda a tua perspectiva de mundo, teus valores e tuas prioridades. A maternidade deve mexer muito com a individualidade da mulher, que passa a olhar e se responsabilizar por outra vida além da sua, tornando-se, quem sabe, mais generosa. Tornar-se mãe não parece ser uma experiência trivial, em que a mulher continua sendo a mesma. Ela parece ser complexa e afeta a mulher de maneira física e psicológica.

Partindo disso, será que é preciso estar preparada para ser mãe? Ou a gente vai processando as transformações aos poucos, conforme os desafios vão surgindo? Será que todas as mães precisam pensar de maneira parecida, abandonar seus projetos pessoais e sua individualidade? Existe um jeito certo de ser mãe? Aqui, começam os meus embates entre a maternidade convencional e as outras formas de maternidade que podem ser inventadas. Entre aquelas ideias que nos são passadas pelos discursos sociais e aquelas que criamos a partir da nossa própria experiência. Para mim, a ideia de que ser mãe é um processo individual, em que não há um manual de instruções e nem procedimentos a se seguir parece mais natural.

Uma das coisas que me causam estranhamento, por exemplo, é de se moldar e se criar todo um planejamento de vida em torno da gravidez e das crianças. Como vocês já devem ter notado nos meus textos, tenho problemas em me encaixar nos padrões. Espero que a maternidade venha para mim de modo não minuciosamente planejado. A mesma lógica parece guiar um pouco a minha ideia sobre criação de filhos. Não me vejo planejando meus passos profissionais e pessoais em torno dos meus filhos. Claro que, na teoria, isso parece funcionar de maneira muito melhor do que na prática. Posso mudar de opinião se me tornar mãe e sei que terei que fazer algumas concessões. Mas pensar que posso criar a minha experiência de maternidade, que carregue os meus valores, me faz encarar o assunto de maneira muito mais leve.

AuthorNatália Flores

Jornalista, sou movida pela curiosidade sobre o mundo e a vida. Tenho um pé (ou quase dois) na pesquisa e na sala de aula e vejo essas práticas como transformadoras. Inquieta, problematizadora, sempre em transformação. Acredito que o mundo está aí pra ser descoberto – e questionado.

One reply to A (in)decisão de ser mãe

  1. Bom isso, Natália… Se a maternidade vier, que venha sem cuidados de avisar e planejar. Competências não faltam. Eu na juventude nunca pensei em ter filhos. Vieram! E vieram tão maravilhosamente

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