Santa é a mãe

Santa é a mãe

Ano após ano, no mês de maio, somos bombardeadas por toneladas de comerciais, falas e eventos que trazem a maravilha que são as mães. Mãe é a versão melhorada da mulher. Se seguirmos todos os passos e formos bem-comportadas poderemos passar de Maria Madalena para Virgem Maria, olha que delícia!
E bom, Virgem Maria merece todas as homenagens, não merece? Talvez por isso deixamos passar, no dia das mães, todas as críticas feitas por nós aos estereótipos femininos. Mãe merece todas as homenagens. E quem somos nós, naquele momento em que todas se reconhecem no papel de filha, para questionarmos homenagens à pessoa sagrada? Então, peço licença a minha mãe — e nesse Dia das Mães vou esquecer dela, e de todas as homenagens que lhe devo — e vou falar como mãe, e de todas as homenagens que dispenso ganhar.

As homenagens, quase todas elas, me incomodam. Fazem eu me sentir uma farsa. Eu não sou o tal anjo sem asas que estava esperando o filho nascer para cuidar dele. Eu sou a mulher angustiada tentando aceitar que o bebê tem o seu tempo e eu não posso fazer nada a respeito. Não acordava feliz quando o bebê chorava no meio da noite, nem tenho brilho no olhar quando tenho que trocar lençóis às três da madrugada. Nenhum clarão de luz me tornou uma pessoa melhor, mais sábia e poderosa quando vi minha filha pela primeira vez. A maternidade não me santificou.

Não tenho nada de santa, nem de mulher maravilha, e me esforçar para atingir patamares sobre-humanos me renderam problemas de saúde. Parem de dizer que damos conta de tudo com um sorriso no rosto. Não damos, e quando damos, não é com um sorriso — é com a pálpebra tremendo, dores musculares, esgotamento físico e mental. Não damos porque não é viável alguém dar conta de tudo que diz respeito a duas, três, quatro vidas. Olho para o lado e vejo tanta gente adulta que não consegue dar conta da sua única e exclusiva vida. Que se atrasa para compromissos, que produz menos do que se responsabiliza, que está sempre reclamando da falta de tempo. Imaginam que, se tornando mãe, vai surgir uma força e capacidade mágica? Não surge. O tempo não dobra, os músculos não ficam mais fortes e não liga uma chavezinha que muda tudo.

Para buscar atingir esse ideal, que nos vendem em tantos momentos e tem seu ápice no dia das mães, muitas vezes esquecemos absolutamente de nós. Deixamos de lado o que somos, gostamos, queremos, nos anulamos como indivíduos. Não nos damos o direito ao prazer, ao ócio, ao divertimento, a momentos de solidão. Gastamos o que não temos em coisas supérfluas para os filhos, passamos os fins de semana bancando as recreacionistas e só paramos para a faxina. E o que a televisão, o rádio, a revista, a escola passam aos nossos filhos? Que ser mãe é isso, que ser mãe é dar conta e se anular e tudo bem. Por isso merecemos homenagens no dia das mães, por termos deixado de sermos pessoas para cria-los.

Aqui faço um pedido encarecido, se tem uma publicitária me lendo, uma jornalista, uma professora, uma pedagoga, no próximo dia das mães pense em como fazer uma peça, uma reportagem, um trabalhinho que gere reflexão nos filhos. Que explique que mãe é um ser humano como eles, que não dá conta de tudo, que não tem todas as respostas. Um ser humano que cria filhos, cuida, e sim, ama muito, enquanto vive. Enquanto se descobre no mundo, faz escolhas profissionais, estuda, aprende, ensina. Que a melhor homenagem não são flores ou panelas (no meu caso específico panelas são bem-vindas), mas respeito. Mas respeito não pela Virgem Maria, respeito pela Maria Madalena. Respeito pelo outro como indivíduo igual, com erros e acertos e toda a humanidade que temos.

Leia mais textos do nosso Especial Maternidades:  E tu, pretende ter filhos?   |   Ser mãe     |   A indecisão de ser mãe  |   Com ela, aprendi a criar raízes e asas

Curtiu? Nos acompanhe do face.

AuthorRe Zardin

Acredito na educação como aliada na desconstrução de papeis de gênero e na necessidade de políticas públicas para a garantia de direitos humanos. Nasci no início dos anos 80, adoro ouvir pessoas e suas diversidades. Na maternidade descobri o feminismo como meu foco na luta social.

2 replies to Santa é a mãe

  1. Então… deve ser por este teu olhar que há muito tempo ne trata e respeita como “pessoa”. Bom demais ser tua mãe, Rê! Te amo!

  2. Belo texto! Traduz o sentimento verdadeiro do que é ser mãe! Perfeito! Antes de sermos mãe, somos seres hunanos, com qualidades e defeitos, com certezas e dúvidas, medos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *