Pelo direito das mães desmoronarem

Pelo direito das mães desmoronarem

Vanessa Monni

O que eu aprendi com a maternagem das mulheres da minha vida? Bom, eu sou fruto de um casal jovem que se tornaram pais muito cedo. Sem estruturas emocionais e muito menos financeiras. Enfim, esses percalços que quase todo mundo passa frente a surpresa um filho não planejado.

Bom, voltando às mulheres da minha vida. Eu fui criada somente por mulheres, minha mãe, tias e avó. A figura masculina mais presente na minha vida foi meu avô. Mas nem de longe era exatamente um pai, não aquela figura de educador, ele é doce e gentil ao extremo com seus netos e netas. Por tanto, ele cumpre a figura de avô muito bem.

Todas as mulheres da família são mães solos, até mesmo as casadas. Todas têm de lidar com os percalços, dores e alegrias de se criar seres humanos minimamente não nocivos ao planeta Terra. Eu nunca as vi em sua individualidade. Sempre prontas a ajudar a família em qualquer situação. Dor de barriga? Lá estão elas com uma xícara de chá. Joelho ralado? Lá estão elas de remédios em mãos e um beijinho para sarar. Enfim, elas estão sempre apostas para qualquer coisa.

Dizem que junto do parto uma outra mulher renasce. Que nunca mais serão as mesmas. De fato, não serão. Eu tento ao máximo valorizar e exaltar todas elas. Não somente as mulheres da minha vida, mas qualquer pessoa do gênero feminino. Se ser mulher em uma sociedade tão injusta já é uma batalha diária, ser mãe solo e se doar para outros membros da família é uma luta para toda a vida.

Eu cresci com essas mulheres divididas em turnos dobrados de trabalho e triplicados com os cuidados para conosco. Eu as vi e vejo matando vários leões por dia. Mas a questão toda é: tudo isso é lindo, né? É lindo, sim. Contando é tudo muito corajoso e romântico. Mas eu me pergunto se essas mulheres desmoronam vez ou outra. Se elas se permitem que tudo vá para os ares. Eu só cresci com as ameaças de – “vou embora e quero ver o que será de vocês”. Não sei se agradeço por essa ameaça não nunca ter se cumprido ou se as encorajam a largar tudo para que possam viver na santa paz e não ter mais que nos aguentar.

No fundo rola até um sentimento de culpa por tudo. Ao mesmo tempo que eu sinto tanto orgulho de todas. Outro questionamento me vem à mente: onde estão os homens da família. No caso, onde está a paternidade? Não sei e nunca nem vi.
Até quando socialmente vão cobrar tanto a perfeição e dedicação da maternidade? Enquanto a paternidade é vista como ato de heroísmo a maternidade é mera obrigação.

O que eu aprendi de fato: que o mundo e as cobranças nos ombros de uma mulher são injustas. Por mais esforços e dedicação que haja sempre estarão sob julgamento até mesmo daqueles que mais as amam. Por um mundo onde uma mãe possa se permitir desmoronar sem ser julgada.

One reply to Pelo direito das mães desmoronarem

  1. Tem muito homem que pediria penico muito antes das mulheres, em situações parecidas.

    Em geral, aqueles metidos a besta que esnobam o sofrimento feminino, insinuando que por ser homens matariam tudo no peito.

    O caso da maternidade não-planejada é uma dessas situações.

    Uma vez eu sonhei que seria pai. Nem me lembro de mais detalhes, só de receber a notícia.

    Acordei suando e inutilizei uma fronha e a camisa do pijama.

    Depois fiquei pensando como seria na realidade, como eu reagiria.

    Mas será que se pensa na mulher que recebe a mesma notícia, e vê o futuro abruptamente modificado? Não é preciso desenhar a resposta.

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