A maternidade também é das mãe-drastas

A maternidade também é das mãe-drastas

Meu relógio biológico começou a apitar para a maternidade quando eu tinha 16 anos. No entanto, naquela época eu mesma achava que era cedo demais, eu queria fazer faculdade, ter a minha carreira e viajar pelo mundo. Além disso, não queria aquele namorado como companheiro de vida e nem pai dos meus filhos. O tempo foi passando, e entre a idade, achar o cara certo e a carreira, houve vários descompassos. Até que quando finalmente alinharam-se os elementos, eu estava com 37 anos, casada e com dois enteados.

Conheci meu marido na adolescência, tivemos uma paixonite puramente platônica alimentada por cartinhas fofas, mas fomos viver nossas vidas, cada um de um lado, até o reencontro, quando descobrimos que nós dois tínhamos o sonho de muitos filhos, de casa cheia! Ali decidimos tentar aumentar a família. É incrível como pensamos que somos férteis como coelhos quando começamos a tentar. Não, não somos. Depois de dois anos de tentativas, descobrimos um problema meu de saúde, que já existia desde meus vinte e poucos anos. Mais três anos envolvidos em exames, cirurgias, tratamentos e… nada. Resumidamente, sonhei a vida toda em ser mãe, mas sou infértil.

Como escrevi antes, tenho dois enteados, um casal lindo de adolescentes. Quando aceitei casar, decidi que também seria uma mãe, a mãe de coração. Eu os amo intensamente. Meu padrão de sono mudou: acordo em madrugadas frias e saio da cama pra ver se estão cobertos; já parei ao lado deles dormindo, prendendo o ar até perceber que eles estavam respirando.

Meu padrão de consumo mudou: eu sei quando eles precisam de determinada roupa, quando falta o leite sem lactose, quando tem um filme que pode ser pra família toda,… Desenvolvi um senso de observação maior: percebo a febre pelo brilho do olho, o novo corte de cabelo, a unha que foi roída,… Desenvolvi uma preocupação enorme com o futuro, o que envolve os estudos, as oportunidades, os valores… Descobri o que é ter medo de não estar presente enquanto eles ainda precisam da gente. Não consigo imaginar a minha vida sem eles, e penso nos futuros filhos deles como meus netos. Eu me alegro com as alegrias e conquistas deles, e sofro com as dores deles, rio e choro por eles. Às vezes tenho vontade de colocá-los no colo e em outras, de torcer o pescoço. Elogio, declaro meu amor a eles, e dou bronca. Já acompanhei em retiros, acampamentos e paintball, fiz festa surpresa, costurei roupa para apresentação da escola; ajudo a fazer escolhas, dou dicas e conselhos, Temos longas e curtas conversas sobre temas variados.

Enquanto vivemos tudo isso, descobri que as pessoas falam coisas que ferem muito, algumas porque querem nos ajudar, algumas porque não tem a mínima noção e outras… porque querem mesmo cutucar onde a ferida mais dói.

Algumas pérolas:

“Ah, mas quando tu tiver os teus, tu vai saber o que é amor”. Depois do pouco que descrevi, alguém pode duvidar que eles não são meus também e de que eu sinto MUITO amor por eles?

“Mas tu não pensa em adotar?” Sim, penso muito! Tenho dois irmãos de coração, e com meus enteados, tive plena certeza que meu amor independe da genética ou da minha barriga. Mas não é uma decisão solitária, e os quesitos são vários para decidir, como idade, estados de saúde, com ou sem irmãozinhos. Parte da nossa família é contra. Então, como inserir uma criança em um turbilhão desses? Além disso, os anos de espera que ainda teremos é uma fonte constante de angústia.

“Tu esperou demais pra tentar”. Ok, em tempos atuais, muitas mulheres esperam pra tentar, em função de suas carreiras, principalmente. Eu comecei a tentar aos 37, e descobri que o problema vem de bem antes disso.

“Mas é que tu não é mãe, então não sabe…”. Hein?

Então, eu sou e não sou mãe. Sou mãe porque meu coração sente assim. Mas também não sou, porque meu coração também sente assim, porque nossa sociedade ainda enxerga a mãe conforme o modelo tradicional, da barriga perfeita e redondinha, que pariu seu filhote, e porque a minha psicóloga me disse tantas vezes que eu “deveria sempre lembrar que eles não são teus filhos, e que eles tem mãe”. Meus “filhotes do coração” tem a mãe biológica viva, e que é e de fato deve ser a sua referência principal, que é quem eles chamam de mãe, que é quem recebe o presentinho e as homenagens da escola, que é quem recebe os parabéns e as propagandas. Eu sou a mãe-drasta (e dependendo do meu humor ou do deles, as interpretações são beeem diferentes).

Aliás, alguém sabe que existe o Dia da Madrasta? Eu não sabia até escrever esse texto. Pois bem, o primeiro domingo de setembro é o dia da madrasta, sabe-se lá por qual motivo. O fato é que não há aquela propaganda linda do Zaffari e nem mesmo os catálogos de lojas, farmácias, agências de viagens, etc, noticiando e incitando ao comércio. Não há presentes, parabéns, homenagens. Mesmos os criativos memes na internet são poucos, e sempre com as madrastas famosas e “queriiiiiiidas” dos contos de fadas e das novelas. Em tempos de famílias formadas por pessoas que estão em seus segundos e terceiros (ou mais) casamentos, deve haver quase tantas madrastas e padrastos quanto mães e pais, não? Os meus, os teus, os nossos,…

E isso dói, aperta mesmo o coração. Porque apesar de tanto amor, ainda falta algo difícil de identificar.

Em todos os anos, eu ia às celebrações familiares pelo Dia das Mães. Mas neste ano, eu fiz diferente. Desta vez, eu decidi me respeitar. Eu queria ficar com a minha mãe, só com ela, e foi o que fizemos. Depois do culto, o marido e as crianças foram para a casa de suas respectivas mães. Orientei meu marido a responder com a verdade para quem perguntasse por mim, ou seja, que o dia das mães me dói. Eu fui para a casa da minha mãe, para fazermos um almoço só nosso, simples e aconchegante, e passarmos a tarde juntas. Detalhe que ela é minha vizinha! Foi um dia feliz, sem sofrimentos.

Para meu espanto, o recolhimento pré anunciado gerou duas reações inesperadas: na igreja, fui surpreendida com uma cerimônia de bênção para aquelas mulheres como eu. Em casa, meus enteados me abraçaram de manhã, ao acordarem, cada um a seu tempo, e me desejaram “bom dia, feliz dia das mães”. Foi dito por descuido, mas valeu. Bons presentes.

O Dia das Mães passou suave, e no dia seguinte tudo voltou ao normal. Descobri que manter a fé e me respeitar fez toda a diferença. Aliás, fazem a diferença sempre!

3 replies to A maternidade também é das mãe-drastas

  1. Alexandra Jochins, sou mãe de duas criaturinhas que tiveram madrasta e te digo que muita segurança esta madrasta me deu por eu saber que ela “estava ali”. Amor e comprometimento não necessitam terem raízes uterinas. Muito bom teu relato!!!

    • Mara Lane, obrigada por tuas palavras! Elas aquecem o coração.
      Que bom que gostaste!
      Abraço!

  2. Leonor, a mais sensacional mãe, avó, bisavó viver mostra muito disso. Leonor foi a segunda esposa de meu sogro. Melhor avó cover do mundo!!!

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