Elas… as Fulanas, Beltranas e tal…

Elas… as Fulanas, Beltranas e tal…

Na nossa realidade de filhas/os de famílias financeiramente estáveis, estudantes de colégio particular, moradoras/es da capital do estado… nós éramos muito parecidos, tivemos criações que incentivavam o convívio, o respeito e o cuidado com o próximo.

De “diferente” entre nós?

  • “Ciclano” era ótimo desenhista;
  • “Fulana” era muito boa no futebol;
  • Beltrano” era um guri que tinha cabelos compridos;
  • Eu era filha de pais separados;
  • “Beltrana” as vezes precisava se ausentar por questões médicas;
  • “Fulano” era filho único.

Para nós, não passávamos de colegas que tinham afinidades. Com quem a conversa fluía e as brincadeiras eram divertidas. Alguns liam mais, outros preferiam os vídeos games, mas nossas “barbies” e “super-heróis” divertiam-se juntos. Nossas duplas/trios para montar quebra-cabeças, jogar dominó, super-trunfo ou jogo de memória mudavam a cada vez, assim como as duplas/grupos para fazer trabalhos do colégio. As disputas só surgiam quando precisávamos nos dividir entre os times de futebol (todos queriam jogar junto com a “Fulana”) ou quando tínhamos que fazer trabalhos artísticos (e aí todos queríamos o “Ciclano” do nosso lado).

Quando, depois de alguns anos, passamos a ser apenas eu e a “Beltrana” estudando na mesma turma ficou mais evidente a dificuldade dos nossos outros colegas em interagir conosco, entender as limitações e preferências de cada uma, enquanto nosso universo se expandia justamente por essas diferenças. Lembro muito bem da época que começamos a aprender a Língua Brasileira de Sinais (que ela usava na terapia em grupo que fazia semanalmente no horário inverso às nossas aulas) e o quanto isso foi importante para anos depois eu decidir focar a minha monografia na pesquisa da acessibilidade da publicidade ao sujeito surdo.

Não faz muito fui assistir “O Extraordinário”. Lembrei de muitos momentos da nossa vivência. Ainda que o filme conte uma história muito diferente da nossa, ele me ajudou a entender significado de algumas ações que tinham passado despercebidas, de algumas dores que foram escondidas, do aprendizado que tive e da gratidão que ficou por tudo que vivemos naquele tempo e pela influência que teve na minha formação enquanto cidadã.

Descrição Júlia Flôres

AuthorJúlia Flôres

Sou fotógrafa, publicitária, assessora de comunicação e "responsável técnica" por esse espaço! Descobri o movimento social em 2 mil e poucos... desde então acompanho muitas lutas, que de certa forma me mostraram a importância de cada batalha em defesa dos direitos humanos.

7 replies to Elas… as Fulanas, Beltranas e tal…

  1. Bahhhhh chorei!

  2. Belo texto amiga Parabéns !!!! Postei recomendando no meu Face !!! Grande Abraço !!!

  3. Adorei!!!

  4. Belo texto Juju, a “beltrana” adira você

  5. Belo texto Juju, a “beltrana” adira você.
    Um grade abraço e sucesso

  6. Amei este texto, principalmente pq reconheco um pouco os personagens. Mas principalmente pela pessoa querida e especial que sempre foste e a profissional que se tornou. Bjs

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