A falta de representatividade no estereótipo da telejornalista brasileira

A falta de representatividade no estereótipo da telejornalista brasileira

Imagine a imagem de uma telejornalista. Pensou em uma mulher branca, de cabelos castanhos, lisos e na altura dos ombros, bem maquiada e magra? Se não, pensou em pelo menos duas dessas características juntas? Esta imagem não foi criada na cabeça das pessoas por acaso. Um estudo que realizei em dezembro de 2017 com os três telejornais de maior audiência da Rede Globo mostrou que esta é a aparência mais mostrada na emissora. De 56 jornalistas analisadas, 54 eram brancas, 27 tinham o cabelo na altura dos ombros, 39 tinham o cabelo liso e 25 eram magras.

Esses dados são preocupantes por dois fatores. O primeiro é a noção de que a aparência de uma mulher é crucial para a entrada dela no mercado de trabalho televisivo. Ser uma boa profissional de televisão não significa, necessariamente, que a jornalista será contratada. A aparência conta – principalmente para as mulheres. Se observarmos as bancadas dos jornais onde trabalham homens, as rugas aparentes, o sobrepeso e os cabelos grisalhos não são problema. No Jornal Nacional, por exemplo, William Bonner segue aparecendo com seus cabelos brancos, enquanto sua parceira de bancada já foi trocada duas vezes – Fátima Bernardes trocada por Patrícia Poeta, por sua vez trocada por Renata Vasconcellos. É possível observar, também, que a parceria de bancada de um homem mais velho é sempre uma mulher mais nova: um clássico da televisão, não só no jornalismo, mas nas novelas e nos filmes.

O outro fator preocupante desse cenário é a falta de representatividade. A população brasileira é 50% não branca – segundo dados do IBGE em 2016. Se a maioria da população não é branca, porque a maioria das pessoas que aparecem na televisão é?

É importante refletir, também, que esse estereótipo é amplamente difundindo por estar em uma mídia de massa – a Rede Globo. A partir desse tipo de mídia são apresentadas as representações que os indivíduos têm de si mesmos e da sociedade na qual estão inseridos. Se a representação de uma mulher jornalista nessa mídia é repetida, as outras mulheres, jornalistas ou não, podem utilizar esse padrão como modelo a ser seguido. O problema é que esse estereótipo, por não ser representativo, é inalcançável para grande parte das mulheres. De 56 mulheres, duas são negras e três estão acima do peso. Essas duas características, em especial, são extremamente raras nos telejornais, mas extremamente comuns no nosso dia a dia. Essa padronização, além de gerar uma imagem inalcançável para muitas mulheres, também se torna a aparência específica, um pré-requisito para preencher uma vaga na televisão.

Ser mulher é sentir na pele exigências feitas somente por sermos do nosso gênero. A sociedade espera de nós há séculos que sejamos femininas, boas esposas, boas donas de casa e boas mães, tudo isso sem deixar a beleza de lado. A aparência, em especial, como comentei ao longo do texto, está presente até mesmo no âmbito do trabalho. A televisão é um lugar particularmente cruel nesse quesito, por se tratar basicamente da imagem.

Acredito que aqui se abra um espaço para discutir o que fazer a partir de agora. As faculdades de jornalismo deveriam debater mais esse assunto, trabalhar esse tipo de questão com as próximas jornalistas. Precisamos de mais mulheres diferentes na televisão para incentivar outras mulheres a também se interessarem pelo ramo – e para as mulheres em geral se sentirem representadas.

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