Violências Ocultas

Violências Ocultas

Te amei de uma forma que não consigo explicar. Me senti amada da mesma forma.

Nós sonhamos juntos, criamos um mundo só nosso, ignorando os kilometros que nos separavam.

Foram inúmeras as noites trocando confidências, angustias, carinhos, planos, medos. Nossas vidas foram se somando…

Passamos horas, dias, meses na expectativa de um tão idealizado encontro.

Quando o tal dia chegou, veio fora do timming…
Nós dois comprometidos com outras pessoas. Descobri a minha fidelidade. Foi difícil, lembra? Fora um selinho mutuamente roubado na despedida, nós respeitamos nossos limites, nossos momentos, nossas relações…
Naqueles dias nós descobrimos um amor fraterno e legítimo de quem divide vivências. Amor que se fortaleceu ainda mais.

Tínhamos passado do abismo que separava nossa relação platônica de algo mais próximo das nossas realidades. Podíamos seguir como grandes amigos.

A vida deu voltas e, poucos meses depois, tu voltou pra cá. Num momento complicado da tua vida, eu sei. Mas nada justifica.

Dessa vez, meu novo companheiro não mereceu teu respeito. Minhas negativas, também não. Tu tinhas sede… Vontades incontroláveis. Minhas esquivas te provocavam cada vez mais…

O meu “não” era “charme”.

Tua boca era áspera aos meus lábios. Tuas investidas me causavam repulsa.

Ali tu não era o cara que eu amei. Não era aquele que me fazia sonhar conosco.
Ali, tu era o predador infame que eu duvidava que um dia fosse encontrar.

Tuas mãos se multiplicaram e se adonaram de um corpo que não era teu. Não mais…

O monstro que vi nos teus olhos me deixou vulnerável, incapaz de uma atitude enérgica. Ele me dizia que a tua resposta seria a força, e contra ela eu nada podia.

Respirei fundo e testei a tua paciência. Venci. A cerveja e o cansaço te derrubaram antes de haver atitudes sem volta.

Me desvencilhei. Fui dormir no quarto ao lado torcendo pra que aqueles momentos não passassem de um pesadelo.

Na noite seguinte, como quem deixa claro que está no controle, trouxeste outra pra minha casa.

Me doeu fundo a traição. A falta de respeito. A destruição do cuidado e do amor que existia entre nós.

Foram anos até curar as feridas. Outros tantos até entender que aquela noite não “foi só uma bebedeira”. Levei muito tempo pra assimilar que aquilo foi sim um abuso. Uma tentativa de estupro.

Mesmo eu, que me considero empoderada, que milito na pauta de gênero. Precisei de tempo pra compreender a violação sofrida.

Hoje escuto de outra forma quando me falam da sub-notificação das violências.
Elas não vem só das ameaças, dos medos. Elas ficam ocultas também pela nossa falta de humildade em reconhecer que cada uma de nós pode sim passar por uma situação dessas. Que aqueles que amamos podem sim se transformar em monstros.

Mesmo que por um momento.
Mesmo que ninguém acredite.

AuthorJúlia Flôres

Sou fotógrafa, publicitária, assessora de comunicação e "responsável técnica" por esse espaço! Descobri o movimento social em 2 mil e poucos... desde então acompanho muitas lutas, que de certa forma me mostraram a importância de cada batalha em defesa dos direitos humanos.

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