Difícil é criar gente

Difícil é criar gente

Difícil criar filha mulher, né?

Em três dias ouvi isso duas vezes.

Na primeira vez a resposta foi protocolar, não estava preparada e nem tinha muito tempo para me alongar.

Criar pessoas é difícil, né?

Ah, mas meninas nessa idade são especialmente difíceis.

É, a idade é difícil.

Na segunda vez a intimidade e o local me permitiram entrar um pouco mais no assunto; porém, nem tanto. Até porque algumas questões mexem demais com a cabeça da gente e eu sou bem lerdinha. Preciso primeiro entender o que estou sentindo em relação às questões para depois elaborar melhor e, sinceramente, essa pergunta (quase sempre dita de forma retórica) me incomoda um tanto.

Me incomoda porque é um clichê? Antes fosse por isso. Me incomoda porque toca em um lance interno. Me incomoda porque na verdade passo o tempo todo me questionando em relação a como criar meninos.

Criar gente é dificílimo. Além dos medos e angústias que nascem com a barriga, as incertezas constantes sobre tudo, desde a alimentação, pediatra, como lidar com as birras, como equilibrar as contas, o tempo, a culpa por querermos ter um tempo para nós e como não nos tornarmos reféns destas culpas e criarmos tiranos. No meio disso buscarmos formas de criarmos pessoas com o mínimo de saúde mental, preparadas para enfrentar o mundo e, ao mesmo tempo, para acolher o mundo. Pessoas que saibam conhecer suas necessidades e reconhecer as necessidades do outro, pessoas que respeitem seus limites e respeitem o outro. Eu gostaria de ser honesta quando digo que a complexidade não é piorada pelo gênero; entretanto, é. Se dentro de casa conseguimos igualar os problemas e dificuldades, no momento que entra o primeiro raio de sol pela brecha da persiana as dificuldades são divididas por gênero. O mundo é dividido por gêneros, ignorar isso é ingênuo. Não pensar nisso é fechar os olhos e torcer para que quando abrirmos uma sociedade nova esteja prontinha esperando nossas crias. Entretanto, nos primeiros contatos sociais isso cai por terra.

Não, não é a mesma coisa criar meninos e meninas. Filhos não são criados em bolhas. Eles interagem com o mundo. Por mais que busquemos boas referências, desenhos animados que respeitem a diversidade, músicas bacanas, livros com boas mensagens. Um dia eles voltam da escola pedindo a fantasia de um herói ou de princesa. Por mais Arca de Noé que eles ouçam em casa, um dia chegam cantarolando uma música machista horrorosa e tu pensa: fudeu. Minha cria foi fatalmente atingida pela influência externa. Perdi pro mundo. Tão pequena e já não é minha. Ninguém perdeu nada, mas nesse momento tu descobre que criar meninos e meninas não é a mesma coisa. Por mais que tu queiras muito que seja, não é. O mundo não traz as mesmas condições e para lutar contra isso as armas não são as mesmas.

Se com minha guriazinha, por mais que eu não fosse tão instrumentalizada, era e é automático questionar padrões de opressão machistas, vem de dentro, não preciso pensar… com o gurizinho sinto a todo momento que não estou percebendo padrões que deveria estar questionando. Se com ela já sinto algum alívio e uma sensação deliciosa de “acerto” quando ela identifica falas machistas na escola e vem discutir comigo, quando questiona um comercial de produtos infantis por não ter pais, quando explica para o irmão que não é correto usar a palavra negro para identificar o lado mais malvado de um vilão ou quando não sente necessidade de esconder um absorvente no pátio da escola, com ele ainda sinto um medo terrível de não estar sabendo transmitir a necessidade de questionar, reconhecer privilégios e trabalha-los.

Tudo isso para dizer que sim, criar filhos é difícil, é angustiante. O gênero é um fator. Contexto ideológico, financeiro, social, religioso. O fenótipo, o acesso, a localização geográfica, a possibilidade de instrução formal, a cultura local, a rede de apoio familiar. Todos esses são fatores que modificarão e poderão ampliar ou diminuir a dificuldade. Uma mãe solo, negra, moradora de zona dominada pelo tráfico, possivelmente concorde que criar meninos é mais difícil, ao mesmo tempo que ache todos os meus motivos risíveis. Questão de contexto. Culpemos menos as ppks.

AuthorRe Zardin

Acredito na educação como aliada na desconstrução de papeis de gênero e na necessidade de políticas públicas para a garantia de direitos humanos. Nasci no início dos anos 80, adoro ouvir pessoas e suas diversidades. Na maternidade descobri o feminismo como meu foco na luta social.

2 replies to Difícil é criar gente

  1. Bahhh nunca “criei meninos” mas percebo muito isso no convívio com os netos. Bj

  2. Matéria muito bem elaborada e passou o sentimento de muitas de nós. Parabéns e concordo em número, gênero e grau, dificil é criar gente, ainda mais nos tempos de hoje!

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