Feminismo combina com política?

Feminismo combina com política?

“O feminismo é um movimento político?” Fui surpreendida pela pergunta de uma amiga enquanto conversávamos. Ela, uma menina que nunca se envolveu com política e que até tinha certa desconfiança de movimentos político-partidários de esquerda, tentava entender porque nunca tinha simpatizado com o feminismo, se as ideias que ela tivera contato pelo nosso blog pareciam tão libertadoras. Na hora, respondi um “sim” amplo e óbvio, sem perder muito tempo explicando o porquê daquele “sim”. Ao invés de esclarecer as dúvidas dela, assumi que a pergunta que ela me fazia era lógica, que tínhamos o mesmo repertório e que não tinha muito o que falar sobre o assunto. No entanto, esqueci que não, não tínhamos o mesmo repertório e que o termo “político” poderia ter um significado para ela e outro, completamente diferente, para mim.

Essa conversa me fez pensar sobre o feminismo e definir, mais explicitamente, porque o entendo como movimento político. Ao contrário do que muitos são levados a pensar, a política se faz no dia-a-dia, nos encontros de pais na escola, na conversa com o filho em casa, na reunião de condomínio, na reunião do trabalho. Somos seres políticos: defendemos nossos interesses, assumimos posicionamentos e tomamos decisões sobre a nossa vida em sociedade. O poder e a política estão disseminados em cada uma das nossas esferas sociais, ou seja, não estão apenas na esfera institucional – como nos mostrou o filósofo Foucault.

Nem sempre temos consciência de que estamos assumindo posicionamentos e, assim, exercendo política. Quando somos parte de um grupo de minorias sociais e percebemos a nossa desvantagem em relação a outros grupos, esse posicionamento aparece como modo de sobrevivência. O modo de se vestir, de falar, de se comportar – enfim, de expressar a sua subjetividade, é também um posicionamento político. Através dessas expressões culturais, gays, transexuais e afrodescendentes reivindicam o direito de existir socialmente, do jeito que quiserem ser.

Para mim, a política tem a ver com a consciência do nosso papel no mundo. Do lugar em que você está, como você pode ajudar as pessoas e a sociedade? Claro que o poder que um grande empresário tem de ajudar é diferente do poder que eu tenho, como autônoma que rala para pagar as contas no final do mês – pelo menos em termos financeiros. Acredito, no entanto, que as mudanças sociais também se fazem nas microesferas. Aqui, mais do que o poder financeiro, quem manda é o poder da linguagem. É ela que ajuda a engajar e articular as pessoas em favor de lutas sociais coletivas, a convencê-las de que ainda existe uma vontade coletiva. Acho que é exatamente aí que se encaixa o feminismo e esses outros movimentos sociais, como o movimento LGBT e o movimento negro.

Gosto de pensar que o político, aqui, faz parte da tentativa de transformar as nossas chaves culturais. Como se fosse um pano de fundo, uma raiz, uma base anterior às esferas político-partidárias. Aqui, lutamos pela nossa própria existência enquanto cidadãs. Nossas reivindicações podem ser tão básicas como o direito de sermos respeitadas nos transportes públicos e nas ruas e andar por aí sem sentir medo de sermos estupradas, quanto complexas como políticas de equiparação salarial entre homens e mulheres e melhor assistência estrutural se somos mães e trabalhadoras. Essas lutas por direitos se expressam nas microesferas da vida quando criticamos o machismo de nossos amigos que julgam as roupas ou a atitude de uma mulher, quando discutimos com nosso companheiro a divisão das tarefas em casa ou quando argumentamos com nossos familiares a respeito de leis trabalhistas mais inclusivas.

O aspecto jurídico e político-institucional é uma segunda etapa dessa luta – uma forma pragmática de conquistarmos nossos direitos e espaços de representatividade. É nesse momento em que todas essas reivindicações ganham forma de leis e políticas públicas e se tornam efetivas para a sociedade. Apesar de muita gente ter resistência quando o assunto é partido político (como a minha amiga), inserir as pautas feministas na esfera político-partidária é uma etapa fundamental para conseguirmos as transformações sociais que queremos. Essas são as armas que a democracia nos dá.

Depois dessas reflexões, reformulo a minha resposta para a minha amiga: “Sim, o movimento feminista é político porque está engajado em uma luta coletiva pelo direito das mulheres. Suas armas? O poder da palavra – e de convencer o máximo de pessoas de que essa luta é necessária – e o poder institucional das esferas do poder executivo, legislativo e judiciário, que consolida efetivamente nossas demandas”. Acho que essa resposta é mais satisfatória às dúvidas da minha amiga, não?

Conhece a nossa página no Facebook?

AuthorNatália Flores

Jornalista, sou movida pela curiosidade sobre o mundo e a vida. Tenho um pé (ou quase dois) na pesquisa e na sala de aula e vejo essas práticas como transformadoras. Inquieta, problematizadora, sempre em transformação. Acredito que o mundo está aí pra ser descoberto – e questionado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *