POLÍTICA SEM GRAVATA

POLÍTICA SEM GRAVATA

Ano eleitoral, pré-campanhas a todo vapor, batem uma angústia e uma tristeza. Quantas de nós serão minimamente representadas no legislativo? Se poucas de nós nos vemos representadas nas nossas classes sociais, origens e ideologias, menos ainda são as mulheres que possuem suas necessidades entendidas e assistidas pelos que formam as casas legislativas.

Porque, apesar de muitos candidatos possuírem assessorias femininas e alguns terem a presença de negros e LGBTs em seus gabinetes, são poucos — pouquíssimos, exceções — os que possuem a vivência da mulher que precisa pegar ônibus com filho encaixado na cintura, às seis da matina, para deixar na escolinha e seguir para o trabalho. Quantas das nossas representações parlamentares sabem o que é passar a noite acordado, filho com febre, e ter que perder o serviço no outro dia, colocando o trabalho e o sustento em risco porque não tem com quem deixar a criança?

Vou pegar mais leve. Quantas dessas representações sabem o que é, mesmo com emprego estável, ser criticada por um atestado para ficar com o filho em casa convalescente e ouvir que “mulher tem sempre dessas coisas” e que “eu (chefe macho branco heterossexual cisgênero) nunca coloquei um atestado por doença de filho”?

Quantas das nossas representações escolhem a roupa com a qual vão para um passeio de acordo com a segurança do destino e, principalmente, do trajeto, pois, por mais que saibamos que não é a roupa que faz o abuso, sabemos também que conviver com a culpabilização é quase tão — e, às vezes, tanto — dolorido quanto o próprio abuso?

Nas últimas eleições, existia um tensionamento para que mulheres votassem em mulheres. Apesar de resolver em parte a representatividade, não acredito que pensar sobre isso na hora do voto traga grandes resultados. O tensionamento que fazemos hoje em 2018, por exemplo, deve ser com foco nas eleições de 2020, 2022. Precisamos cobrar dos partidos políticos e dos espaços de militância social oportunidades reais de formarmos mulheres combativas e preparadas, para que não precisamos escolher entre votarmos em mulher ou quem representa nossas outras bandeiras. Assim, teríamos mulheres e homens em pé de igualdade nas disputas internas e com amplitude de bandeiras.

Infelizmente, chegando perto das eleições, os partidos começam a “catar candidatas para fechar cota”. Assim, surgem candidatas sem qualquer representatividade, às quais é dado o direito de concorrer; porém, sem estrutura ou real destinação financeira. Seria interessante saber quantas “candidaturas caseiras” (apoiadas apenas na estrutura pessoal e familiar das candidatas) são criadas nesta lógica. Lamentavelmente, não tenho esses dados. Essas mulheres estão fora do páreo. Se, eventualmente, tiverem grandes recursos pessoais ou apoio forte no movimento social, poderão ser um “azarão” ou, quem sabe, engordar o quantitativo da legenda.

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Os espaços de militância política mistos são, frequentemente, tão machistas que os espaços do mundo corporativo — algumas vezes, até mais. Existem diversos entraves à participação feminina, bem como garantia de permanência nas disputas nestes espaços. Como em outros ambientes, as falas femininas comumente são abafadas, desprestigiadas e, tantas vezes, ridicularizadas. A escuta não é garantida. As disputas por ego frequentemente extrapolam o aceitável, e impedem construções fáceis e óbvias. Se conviver com mansplaining, manterrupting e bropriating no trabalho pode não ser opcional — pois os boletos não se pagam sozinhos — escolher estar e permanecer em espaços de cidadania pode ser um ato não apenas de resistência, mas de resiliência.

Se nos acostumamos que, em uma reunião, temos que falar mais alto; que precisamos virar “patrolas” para conquistar e manter espaços a fim de garantir o ganha-pão e uma eventual promoção, nem sempre temos saco ou vontade de manter essa belicosidade após o expediente, ou em um belo sábado de sol. Nestes momentos, por vezes, o desejo de discutir e participar de construções perde para o desconforto da toxicidade do ambiente.

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Caso a mulher seja mãe de criança, a situação pode ser mais complicada. As que optam por ocupar espaços de militância, precisam conviver ainda com forte recriminação. Ou é a mãe desnaturada que deixa os filhos para fazer políticagem ou é a louca que carrega as crias para esse espaço que “não são para crianças”.

Um espaço de militância igualitário precisa, no mínimo, se reinventar no que tange a aceitação de crianças e mães. E isso serve para qualquer movimento social que queira incluir mulheres como agente político. Ah, Renata! Ninguém proíbe crianças numa plenária.  Realmente nunca vi proibirem, mas o acolhimento geralmente só ocorre, se ocorre, quando o debate é relativo a temas femininos. Já presenciei comentários de “bah, mas será que ela não tem mesmo com quem deixar” e já fui alvo de olhares críticos quando carreguei rebentos e, provavelmente, também dos mesmos comentários.  Nestes momentos o recado que recebemos é: Esse espaço não é teu, não agora. Volte em doze anos que adoraremos te ver. Parece que, enquanto mãe de criança, se perde à cidadania. E, sim, o problema é com a mãe. Porque os pais com crianças são acolhidos e admirados.  Neste aspecto, acredito que a presença frequente da Laura nas agendas políticas e viagens da Manuela, como pré-candidata a presidência, suscite bastante discussão e qualifique   alguns entendimentos relacionados à mãe como agente político.

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Muitas coisas precisam ser pensadas para construirmos equidade de gêneros na política e não tenho a pretensão de esgotar aqui essa pauta. Porém, acho importante termos em mente que mais do que votar em uma mulher, precisamos construir espaços de militância que acolham as mulheres e prepararmos mulheres para essas, e outras, disputas.

AuthorRe Zardin

Acredito na educação como aliada na desconstrução de papeis de gênero e na necessidade de políticas públicas para a garantia de direitos humanos. Nasci no início dos anos 80, adoro ouvir pessoas e suas diversidades. Na maternidade descobri o feminismo como meu foco na luta social.

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