Chega de sermos só coadjuvantes

Chega de sermos só coadjuvantes

Museus têm alguma coisa que me atrai profundamente. Não sei ainda dizer se são os laços com o passado, o modo de colocar o presente em perspectiva – e mostrar que o mundo e a arte já foram feitos de outro jeito. Ou, ainda, o modo como preservam a nossa história, mostrando quem foram os seus protagonistas. Fico extasiada quando entro em museus. Adoto um olhar contemplativo, absorvendo todas as informações possíveis. Nas minhas andanças pela Cidade do México, encontrei um museu que apresenta uma versão feminista da história do México: o Museo de la Mujer.

A fachada discreta do prédio, no Centro Histórico da cidade, parece ser uma alegoria para o espaço restrito concedido à mulher nas narrativas históricas tradicionais. Na História oficial, o sujeito-protagonista de decisões políticas, guerras e revoluções nunca é uma mulher. São os homens que descobrem novas terras, travam importantes tratados de Paz ou declaram independência. Nestas narrativas, as mulheres assumem um papel de coadjuvantes – se muito. Por muito tempo, acreditamos que as coisas foram assim mesmo. Que a falta de instrução e o confinamento ao lar eram os culpados pela falta de relevância histórica e política das ações das mulheres. Pois bem. Não é que outras narrativas começaram a surgir, revelando que o papel da mulher não era tão secundário assim?

No Museo de la Mujer, somos conduzidas a uma narrativa sobre o status social e político da mulher mexicana, das culturas pré-colombianas, passando pela época colonial, e pela independência mexicana, até as conquistas mais recentes, como a conquista ao espaço político – ao direito de votar e ser votada. Aos poucos – bem aos poucos e à custa de muita luta – vimos que as mulheres mexicanas foram abandonando uma identidade católica de santa e casta, de moças bem-comportadas confinadas à esfera privada do lar, e passaram a assumir posições cada vez mais ativas na luta pelos seus direitos. 

Descobrimos também que algumas mulheres atuaram em importantes momentos da história do México, como na luta pela independência, e na Revolução Mexicana de 1910. Leona Vicario, Josefa Ortiz de Domíngues e Maria Ignácia Rodriguez de Velasco foram algumas das mulheres que se engajaram na luta pela independência, atuando no planejamento de estratégias, administrando recursos e fornecendo as suas casas como centro de reuniões políticas. Leona Vicário escreveu para a imprensa insurgente, motivo pelo qual é considerada a primeira jornalista mexicana. Essas mulheres ocupavam lugares privilegiados na sociedade mexicana da época, o que favoreceu a sua inserção nesses movimentos. A presença das mulheres em fatos políticos só se acentuou a partir do início do século XX e passou a se espalhar para outras classes sociais. O movimento zapatista, que deu origem à Revolução Mexicana, foi o movimento popular que mais teve mulheres em suas fileiras.

A história das mulheres e sua exigência por serem tratadas como cidadãs é bonita e ao mesmo tempo sofrida e longa. No México, por muito tempo, a mulher que cometia crimes ou conspirações políticas não respondia judicialmente por si, já que era posse do marido. Em casos de separações matrimoniais, a mulher passava a viver confinada em um convento ou outra instituição religiosa escolhida pelo ex-marido. Essa realidade mexicana pode ser facilmente generalizada para outras partes do mundo. Ler esses fatos me fez agradecer o espaço que ocupamos hoje e o quanto avançamos até agora. Mas também me fez perceber que nossas conquistas ainda são bem recentes. Neste lugar, entre a memória e o devir – que coloca as coisas em perspectiva, de um modo que só os museus sabem fazer – fiquei convencida da importância de contarmos a nossa história em espaços como esse.
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Além de ter uma exposição permanente contando esses fatos, o Museo de la Mujer promove palestras sobre o feminismo. Pra quem se interessar, existem iniciativas semelhantes de museus feministas na Argentina, Suécia, Dinamarca, Turquia e – pertinho da gente – em Belém do Pará (Museu da Mulher Brasileira).

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AuthorNatália Flores

Jornalista, sou movida pela curiosidade sobre o mundo e a vida. Tenho um pé (ou quase dois) na pesquisa e na sala de aula e vejo essas práticas como transformadoras. Inquieta, problematizadora, sempre em transformação. Acredito que o mundo está aí pra ser descoberto – e questionado.

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