Da saia curta ao IML: só a lei não muda nada.

Da saia curta ao IML: só a lei não muda nada.

Doze anos de Maria da Penha e toda semana tem um caso de feminicídio absurdo sendo repercutido. Além do sucateamento das estruturas, nós como sociedade temos grande responsabilidade nessas mortes. Há alguns anos li uma reportagem baseada na amostra de um grupo de apoio/reabilitação de homens que foram condenados sob a óptica da Lei Maria da Penha. A surpresa do repórter por não encontrar monstros, mas homens normais me fez refletir sobre como a sociedade vê o agressor em casos de violência doméstica. Um monstro, um doente, alguém fora do contexto. E aí que está um dos grandes problemas. O agressor é um “homem de bem”, ou não, mas pode ser. Tratar o agressor como o único problema está, ao meu ver, em um dos grandes problemas.

Peraí! Então o agressor não deve ser culpado? Não, espere. O agressor deve ser responsabilizado, preso, julgado e sofrer TODAS as sanções previstas na lei atual e; assim espero, nas próximas que serão criadas. Deve ser penalizado pela violência com todo o rigor da lei SEMPRE. O que não podemos é tratar como se isso fosse a solução de todos os problemas. Somos contra a violência doméstica. Então quando a mulher denuncia, o cara é preso, vai a julgamento e paga pelo seu crime está tudo bem, certo? Errado. Esse cara foi preso e pagará pelo seu crime, ótimo é assim que tem que ser.

Na casa ao lado; porém, existe uma mulher que apanha diariamente e não tem coragem de denunciar porque tem um filho pequeno, a família a considera que ela é uma felizarda em ter conseguido aquele casamento, ela largou o emprego para cuidar do filho e não tem mais vínculos sociais fora do círculo dele. No apartamento de cima tem uma senhora que considera as ofensas diárias que sofre do marido normais, pois ela não é mesmo muito inteligente e ele está lhe fazendo um favor estando casado com ela. Na esquina uma menina levou um sopapo do namorado porque ela deu abertura para aquele carinha novo no grupo. Na rua ao lado tem uma jovem recém-casada que foi estuprada pelo marido. A primeira pensa em denunciar, mas tem medo do que virá. A segunda não vê violência na sua relação. A terceira se sente culpada, porque ela pode ter sido mesmo muito simpática. A quarta sabe que homens são assim e seu marido tem direito de querer sexo, isso não é estupro, estupro foi daquela vez que o tio chegou bêbado enquanto ela dormia e tirou sua virgindade aos onze anos.

Cenas de violência a mulher acontecem diariamente, são protagonizadas por pessoas que amamos, respeitamos e consideramos bons colegas, pais, maridos. A violência é tão naturalizada que muitas vezes não conseguimos enxerga-la, é o comportamento normal. E nós, mulheres, somos tão condicionadas a ela que precisamos pensar muito, ler muito, ouvir muito para percebermos o quanto já fomos vítimas e o quanto já apoiamos agressores.
Somos, de forma geral, condicionadas a acreditarmos que respeito e direitos relativos ao comportamento que temos. Tenho o direito de não ser estuprada se eu estiver sóbria, andando na rua a luz do dia, com uma roupa bem discreta e fechada. Tenho direito a exercer um cargo de chefia se for mais qualificada que os homens a minha volta, trabalhar o dobro que os outros e não tiver filhos pequenos para tirarem meu foco. Tenho direito a dizer que sofri violência doméstica se for a primeira vez que isso aconteceu e estou com ossos quebrados. Se não for assim, fui eu que provoquei, fui eu que não fiz o suficiente, sou eu que deixei chegar nesse ponto ou que estou exagerando.

Ensinamos as nossas crianças que o gênero define comportamento, que as meninas devem se preservar e os meninos lutar por seu espaço e desejo. Que obrigações com filhos e casa são tarefas femininas. Aprendemos e reproduzimos que um gênero tem direitos e o outro também, mas desde que se comporte direitinho.

Quando existe violência doméstica temos sim um criminoso. Porém, não é o abusador o único problema, não é só a relação que está doente. Doente está a nossa sociedade que permite e embasa esses comportamentos abusivos até que alguém morra ou costelas sejam quebradas. Somos parte disso e enquanto fizermos de conta que não somos, todos e todas seremos responsáveis por essas mortes. Enquanto não questionarmos diariamente nossos atos e falas e buscarmos desconstruir esses papeis ridículos de gênero, seremos responsáveis por cada mulher violentada, espancada e morta.

A lei pune, mas não muda uma sociedade sozinha.

AuthorRe Zardin

Acredito na educação como aliada na desconstrução de papeis de gênero e na necessidade de políticas públicas para a garantia de direitos humanos. Nasci no início dos anos 80, adoro ouvir pessoas e suas diversidades. Na maternidade descobri o feminismo como meu foco na luta social.

2 replies to Da saia curta ao IML: só a lei não muda nada.

  1. Pior que é mais fácil ver os Estatutos (Idoso, Criança e Adolescente e Torcedor) serem mais facilmente obedecidos que a Maria da Penha. E que conste o quanto que estes três grupos sofrem…

  2. Da saia curta ao MBL, muito menos.

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