Descobri o amor próprio

Descobri o amor próprio

Na infância eu sofria bulling, apesar de o termo não ser usado na época, eu me sentia muito mal. Bem criança me sentia assim por não ser loira de olho azul ou verde como a maioria das minhas amigas, primas e colegas de escola. Não, eu não sou negra, nunca senti na pele o racismo, e não estou e jamais compararia isto ao que as crianças negras passam. Mas eu queria ser loira de olho azul e não ter o cabelo e os olhos castanhos, ainda mais sendo uma “alemoa”, nascida em terra de alemão e região em que a maioria é loiro e tem olho claro. Até que eu comecei a ver que nem todo mundo é igual, e gostar da cor do meu cabelo e dos meus olhos. Depois, eu era chamada de vesga e riam de mim por isso, me via nas fotos e queria chorar me achando feia por causa do olho “olhando errado”. O que consolava era quando meu melhor amigo xingava os outros e comprava a briga por mim. Mas já adolescente eu consegui melhorar esse desvio e isso foi parando de me magoar.

Porém, o que senti e nunca passou foi que eu era a menor e mais magra da turma, do jardim da infância até a faculdade. Eu me sentia mal por isso, eu era zoada por isso, mesmo quando estava saudável não me sentia bem com o meu corpo, me achava feia. Sempre pareci muito mais nova do que realmente sou, e isso doía, principalmente na adolescência quando as pessoas viam minhas colegas como adolescentes, os meninos as achavam bonita e eu tinha cara de criança e eles me achavam uma pirralha. Dizem que a adolescência é a fase mais difícil da vida, ao menos é a fase que costuma ter muitas crises existenciais. Eu tinha muitos amigos, sempre tive, fazia muitas coisas que me deixavam feliz, mas ainda assim seguia não gostando da minha aparência.

Depois completei 18 anos, e as zoeiras de que eu continuava menor de idade eram grandes, as pessoas pedindo carteira de identidade em tudo que é lugar para mim e meus amigos menores de idade entrando sem precisar mostrar documento porque pareciam ter 18. Início da carreira profissional e as pessoas me valorizavam menos porque julgavam que eu nem tinha 18 anos ainda. Quem me empregou na adolescência, aos 18 e depois aos 19, que é com quem sigo trabalhando, sempre apostou e acreditou em mim, mas as pessoas ao redor desacreditavam, duvidavam da minha capacidade. Assim as coisas se seguiram, fiz 20 anos e pensei “agora sou adulta, jovem, mas sou adulta”. Falei para mim mesma: “preciso me ver como mulher”, mas por mais que tentasse não conseguia, eu me olhava no espelho e via uma menina de 14 ou 15 anos, as pessoas diziam que eu tinha essa idade também.

Passou algum tempo e os estranhos no elevador da Câmara dos Deputados continuavam com as piadas de “ué, você já tem idade para trabalhar aqui? Cadê seu uniforme de jovem aprendiz?”. Um ministro ao cumprimentar um a um em uma reunião ministerial com alguns deputados, quando chegou na minha vez fez piada para todas as pessoas na sala de reunião ouvirem ao dizer para a minha chefa: “Rosário, mas essa menina já tem idade para trabalhar? Vou te denunciar ao conselho tutelar hein?!”. Por outro lado, quem não me conhecia pessoalmente, ou conhecia meu trabalho ou sabia da minha trajetória (quantas cidades morei, os trabalhos que tive…) achavam que eu tinha uns 24 anos e eu ficava feliz da vida, mas quando me conheciam pessoalmente diziam: “Nossa se eu não soubesse tua história, teu bom trabalho, diria que tu tem menos de 18 anos pela aparência”.

Por tantos anos isso foi um tormento na minha vida. Eu sempre fui rodeada de amigos e de uma família onde recebi muito amor, fui feliz de verdade, mas nunca completa, nunca me aceitei visivelmente. Passaram os 21, os 22 anos e finalmente chegaram os 23. Nesse período já estava fazendo academia, acompanhamento nutricional, tudo para engordar, ganhar peso. Ganhei alguns quilos de fato, mas só havia recuperado os muitos que perdi ao passar por uma cirurgia de apendicite e a retirada de quatro sisos, mas passei a gostar mais de mim. A gostar de me olhar no espelho. De um tempo pra cá comecei a me preocupar com as roupas que uso, não porque ache que isso seja algo de extrema importância, afinal, roupa não define caráter, mas porque eu passei a gostar de me ver. Meu corpo não mudou praticamente nada nos últimos anos, mas eu passei a gostar mais de mim, acho que foi a maturidade, o passar do tempo. Mas o marco dessa mudança, foi o dia 17 de julho de 2018, isso mesmo, a pouco mais de um mês.

No dia da minha formatura na faculdade, eu coloquei um vestido lindo, vestido de mulher e não de menina, aquelas coisas que antes eu tinha vergonha de vestir, porque como eu tinha vergonha do meu corpo, desde criança tinha vergonha de me vestir bem e chamar atenção. Ficar mais escondida nesse sentido era melhor, tinha medo do que as pessoas iriam falar de mim. Mas nesse dia eu senti que o dia era meu, que finalmente eu havia me tornado uma mulher, afinal, eu estava me formando na graduação, me tornaria uma jornalista, uma profissional formada a partir de então. Sim, eu dei olá para a vida de adulta há alguns anos, mas só nesse dia consegui me olhar no espelho e me sentir uma adulta. Me vi naquele vestido “de mulher”, com uma maquiagem linda, um sapato bonito e me senti feliz comigo mesma.

Pois é, não sei explicar o porquê, mas depois dessa noite eu tenho me considerado muito mais estilosa, escolho o que vou vestir, adoro fazer selfie porque me sinto bem e gosto de como estou, me sinto mais alegre com a vida. Eu sempre fui muito feliz, passei por perdas e dores muito profundas, mas aprendi a lidar com isso e valorizar cada momento da vida e encontrar felicidade nas pequenas coisas. Mas só agora sinto uma alegria de viver diferente, eu to sempre bem comigo mesma. Mesmo com as pessoas ainda zoando de mim. Deve ser como disse um amigo na minha formatura: “Quando você aprende a rir de si mesmo, é porque passou de fase”. Sinto que isso me gerou uma auto-estima alta, gerou uma confiança em mim que eu não tinha antes, e me dei conta do quanto isso muda a forma como as pessoas me veem. Fisicamente não mudei, mas ouvi algumas pessoas dizerem: Há 3 anos a Júlia saiu do RS uma menina, olha como ela voltou uma mulher”. Já me perguntaram se eu estou apaixonada, porque estou sempre alegre com um sorriso igual de quem está apaixonado. E mais feliz do que eu imaginaria estar ao dizer essa frase, eu disse: Não estou apaixonada. E pensei, estou sim, apaixonada por mim, descobri o amor próprio.

 

*Observação: Quando alguém lhe disser que algo que você disse a magoou, leve a sério, pra você pode ser uma brincadeira, para ela pode significar uma dor profunda. Ajude a pessoa com elogios sinceros. E saiba, que aos poucos ela vai superar e vai aprender a rir de si mesma, a brincar com seus “defeitos” ou ver que eles não são defeitos. E se você ver que isso está levando a pessoa a uma tristeza muito profunda, não hesite, a ajude a procurar ajuda de um psicólogo ou psiquiatra. Eu consegui superar sem, mas fico me questionando, se eu tivesse buscado ajuda de um psicólogo, será que eu não poderia ter resolvido isso antes dos 23?!

 

AuthorJulia Lanz

Tenho 23 anos. Curso jornalismo e trabalho com assessoria de comunicação na área política. Milito no Intervozes, coletivo que luta pela comunicação como um direito humano. Cresci numa família militante de esquerda, me tornei uma feminista e indignada com as injustiças do mundo.

One reply to Descobri o amor próprio

  1. Querida, me identifiquei muito com o teu texto. E sei que tem muita gente como nós que demora pra “se assumir” e se gostar. Ainda bem que conseguimos, né? <3

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