Não mais me odiarei

Não mais me odiarei

Cabelo para a mulher negra, nunca é só cabelo. É resistência contra padrões estéticos, valorização da ancestralidade e aceitação. Na verdade a aceitação não parte de nós, negras, mas sim, de uma sociedade que não aceita o que foge dos padrões impostos por ela mesma. Gosto e padrão são construções sociais, nenhuma de nós nasce odiando seus cabelos. Nos ensinam a demonizar nossos crespos e cachos.

Tudo começa ainda na primeira infância: com as primeiras representações de princesas e seus cabelos sedosos e lisos, que varrem o chão (e quase sempre loiros).  Depois, o conteúdo tóxico das revistas adolescentes, ditando regras sobre o que é belo e o que é feio, onde obviamente a parte do bonito quase nunca ficava com as meninas negras. E assim vai indo, vão nos construindo a odiar quem  somos, vão nos dizendo que nunca representaremos o padrão vigente. Nos ensinam que nosso cabelo é ruim, que ele não é versátil e muito menos ‘elegante’. Sim, já li em uma revista que cabelos crespos não são elegantes pois: CHAMAM MUITO A ATENÇÃO.

Minha relação com os meus cabelos sempre foi de amor e ódio, durante mais da metade da minha vida de ódio. Principalmente porque minha mãe possui cabelos lisos, e passei boa parte vida a culpando por não dividir essa bênção da genética de ter um ‘cabelo bom’ comigo. Eu cheguei ao ponto de carregar entre meus cadernos um pote de creme, e  constantemente ia ao banheiro molhar meus cachos. Porque Deus o livre aquele volume todo, né? Era feio demais. E os 15 o crush não me notavam. E eu achava que a culpa era dos meus cabelos, e não do racismo estrutural quando o menino dos olhos coloridos disse para minha melhor amiga: “Até acho a Vanessa legal. Mas não gosto de guria MUITO MORENA” – Opa, o primeiro ato racista na vida. Rafael, espero que tu leia isso. Tu falou isso para a Carol. Eu lembro bem, foi em 2007.

Pronto, lá fui eu xingar minha mãe por ter se relacionado com um homem negro. Gente, eu odiei meu pai e minha mãe por isso. Eu sempre quis alisar, minha mãe nunca deixou. Mais um motivo para eu ficar ainda mais pistola com a Dona Maria. O tempo foi passando e comecei a trabalhar. E aos 18 anos, peguei mais da metade do meu salário e alisei. Foi a realização, eu tinha torcicolo de tanto que balançava meus cabelos. Fui feliz, sim. Por uns dois meses. Porque tinha a manutenção, e eu obviamente não tinha dinheiro pra isso. Tinha os dias de chuva também. Tinha a piscina e o mar, do qual eu não ousava chegar perto. Afinal, eu acordava umas duas horas antes para fazer chapinha e queimar a ponta das orelhas então, era bom eu me prevenir e ficar em casa.

Desisti. Era muita dependência, e meu cabelo não aguentava mais as agressões químicas. Cortei eu mesma. Em um dos melhores momentos da minha vida, um rompante de coragem, de mandar os padrões para longe. Esse momento foi decisivo e norteou muita coisa em mim. Minha aceitação principalmente. Olhar no espelho e amar cada formato dos meus cachos. Descobri que meu cabelo balança sim, e quanto mais volume, mais elegante e confiante eu me sinto.

Descobri a versatilidade dos meus cachos e que posso tê-los da cor que eu quiser, meu tom de pele não dita regra nenhuma sobre isso. Percebi que basta eu querer e a mágica acontece: ele pode ficar azul, rosa, verde, vermelho e platinado. Se nos ensinam a odiar quem somos, eu digo: “preta, se ame. Resista. Nenhuma sociedade ditará regras sobre teu corpo. Não mais”.

 

One reply to Não mais me odiarei

  1. Muito bom!!!!

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