Quando o equilíbrio frágil vira desequilíbrio: um relato ordinário de mais uma mãe

Quando o equilíbrio frágil vira desequilíbrio: um relato ordinário de mais uma mãe

A correria do dia-a-dia é pesada. Trabalho, casa, filhos. O banho é sempre correndo, a casa nunca está organizada, o uniforme da escola nunca está limpo, a comida nunca está boa, o sono nunca é o suficiente, nunca sobra tempo. Fazer algo por prazer é deixar para trás algo útil que está pendente.  As obrigações devem vir antes da diversão. As obrigações nunca acabam, a diversão nunca chega. A vida segue. Neste final de semana não rola ver amigos, as crianças têm atividades na escola. No próximo, tenho compromissos importantes. Semana passada, o trabalho exigiu muito, só quero dormir.

A louça suja causa culpa, a situação do país desespera, o compromisso na escola do filho causa pânico. É só uma fase. Estou cansada. Logo passa, estou exausta.  A próxima semana será melhor. E é. Era apenas TPM. Era o filho com febre. Era o mau humor do marido. Eram as demandas de trabalho, que estavam mais pesadas. Era qualquer situação que me deixou no limite. Qualquer peso, nem que seja uma grama, que desestabilizou o frágil equilíbrio do suportável. Semana que vem será melhor.

Semana que vem é melhor. Não choro nenhuma vez. Não tenho vontade de sair de casa, mas me dou ao direito de dormir no sábado de manhã. A casa está mais organizada. Brigo menos com o mundo, mas o sol está muito quente e não quero sair para a rua. Vou aproveitar para limpar azulejos. O vento está forte, não quero ir para o parque. Tenho muito o que fazer, não quero ir a lugar nenhum. Não, não quero que ninguém venha aqui, a casa tá bagunçada demais. Interagir me deixa tensa, não preciso, não quero. Já vejo gente demais todos os dias. Já saio de casa todos os dias. Me deixem quieta. A minha cama é quentinha. Tô cansada. Só quero dormir. Tenho muito o que fazer, não vou conseguir. Que vontade de desaparecer.

As obrigações tão em ordem. Respondo às demandas no trabalho. Pago as contas. Pego as crianças na escola. Faço comida fresca. Divido as tarefas da casa. Sou um ser humano produtivo e útil a sociedade. Apenas gasto toda a minha energia com isso, e a ideia de algo que fuja às obrigações básicas diárias me desperta ansiedade e exaustão. Não tenho tempo, não tenho dinheiro, não tenho condições. Eu faço o que precisa ser feito. Estarei nas festividades da escola, mesmo que isso cause ansiedade. Estarei sorrindo nas fotos. Estarei nas agendas familiares e me comprometerei a cozinhar. Estarei onde precisarei estar. E tá de boa, não faço mais porque estou cansada.

Um dia, algo arrebenta a balança. Problemas em casa, problemas no trabalho, problemas financeiros, alguma coisa com os filhos, doença de alguém próximo. Algo desperta mais crises de ansiedade. Fica difícil dormir. O sono fica curto e cheio de sonhos, a ansiedade do dia toma conta das noites. Enquanto o sono não me vence, as madrugadas são de medo. Aquela conta que precisa ser paga? Não vou conseguir pagar. Mesmo que o racional diga que tem dinheiro no banco, vai acontecer algo e não conseguirei pagar. A tosse do filho é uma pneumonia, mesmo que a tosse tenha começado ontem, depois de uma virose. Eu vou ser demitida, porque o meu chefe me olhou de cara feia. Aquela minha unha encravada é um câncer. Como sobreviverei desempregada com um filho com pneumonia e tratando um câncer? Não tenho força para isso. Passo horas pensando no que devo fazer amanhã, como procederei nessa realidade nova e horrorosa com a qual acabei de me deparar. O cansaço vence o medo, e o sono vem.

O outro dia chega, e o cansaço do corpo não diminuiu. Novas situações se apresentam, todas são um problema. Novas noites repetem a mesma lógica. O dia e a noite ficam mais parecidos. A ansiedade da madrugada insone está presente no dia. A sensação de não dar conta passa a ser uma realidade. A privação do sono me deixa burra. A vontade de chorar é constante, e não consigo mais correr para o banheiro para esconder as lágrimas. Me tornei a sombra do que eu fui um dia. Não acredito mais nas minhas competências, não acredito na capacidade de melhora, não acredito em nada. Gostaria que tudo acabasse. Me sinto um peso para a minha família. Acho que meus filhos seriam mais felizes sem mim.

A minha narrativa para no momento em que percebi que, sozinha, não conseguia mais, e fui buscar ajuda profissional. Ela pode seguir no fim do último parágrafo ou parar antes. Enquanto a narrativa seguir, existe a chance de um final feliz. Cada uma tem sua história, e carrega cargas, tendências, capacidade de percepção e históricos familiares diferentes. Somos únicas e temos formas bem diversas de lidar com as coisas.

Achei importante dividir aquela narrativa, pois sei o quanto a depressão é solitária. Sei o quanto acreditamos que estamos sós, que somos fracas, incapazes. Ao mesmo tempo, a depressão é silenciosa e pode passar despercebida entre familiares, amigos e colega de trabalho. Os relatos de amigas que sentem uma culpa enorme quando fazem um programa que lhe é prazeroso, longe dos filhos, também me impulsionaram a escrever.

Dar-nos o direito ao prazer e à satisfação individual ajuda enormemente a nossa saúde mental.

Existem formas de mantermo-nos saudáveis. Cada uma tem suas facetas. Seja a ioga, a meditação, os exercícios físicos, tricô, pintura, música…busque realizar atividades prazerosas, dedique alguns minutos para você. Busque isso sentindo-se no controle e saudável, com terapias, técnicas de autoconhecimento, formas de melhorar sua vida.

Caso você não consiga mais sentir prazer — e tudo pareça muito difícil, na sua visão — é importante buscar, sim, ajuda profissional. Médicos podem ser procurados a qualquer momento; são absolutamente necessários, porém, quando percebemos que estamos doentes.

Pense na sua saúde mental como você pensa na sua saúde física.

Fazemos alongamentos para manter os músculos saudáveis. Quando temos dores em função de uma atividade, podemos usar cremes, géis, gelo, para resolver. Porém, se a dor persiste e começa a atrapalhar a nossa vida, buscamos um médico. Ele poderá nos prescrever medicações, fisioterapia, ou outros tratamentos.

Com a saúde mental é semelhante. Cada etapa (saúde, desconforto, adoecimento) tem seus recursos, e não devemos nunca ter medo ou vergonha de busca-los para mantermo-nos bem, ou recuperarmos a saúde. Você teria vergonha de tomar remédios para pressão e consultar um cardiologista regularmente?

Precisamos falar sobre isso. Precisamos apagar estigmas e exigir investimentos públicos maiores e mais qualificados em saúde mental.  Investir em prevenção e tratamentos auxiliares também. Precisamos pensar saúde mental como um direito.

AuthorRe Zardin

Acredito na educação como aliada na desconstrução de papeis de gênero e na necessidade de políticas públicas para a garantia de direitos humanos. Nasci no início dos anos 80, adoro ouvir pessoas e suas diversidades. Na maternidade descobri o feminismo como meu foco na luta social.

3 replies to Quando o equilíbrio frágil vira desequilíbrio: um relato ordinário de mais uma mãe

  1. Texto muito oportuno, considerando o grande número de mulheres que sentem exatamente isso. Acredito que a solução é sim, a procura de ajuda de especialista. Acredito também que é muito importante se conhecer, conhecer seus limites, conhecer suas possibilidades, aceitar ajuda e saber que nenhuma de nós é super-mãe, super-mulher nem super nada. Falo com a experiência de quem passou, pensou, sentiu tudo isso e conseguiu se manter saudável. Tem jeito. A solução está em cada uma de nós e não é igual a nenhuma outra. Culpa não serve para nada, desespero só aumenta o problema. Força e foco. Uma coisa de cada vez. Elencar prioridades. Desanimar jamais. Um abraço.

  2. Tens total razão, Maria Helena. Aprender a se olhar, ver suas necessidades e limites é o grande “pulo do gato”. Respeitar o que se sente, ignorar grupos de mães (risos), ignorar as pressões externas e aprender a lidar com as pressões internas. Esse último ano e pouco, desde que me vi no limite, tem sido enriquecedor. Tenho me redescoberto a cada dia e percebo que, apesar de diminuir o foco da maternidade, tenho me tornado uma mãe melhor.

    • Que ótimo e cada vez aprendemos a respeito de nós mesmas. Não tem como lidar bem com as questões externas e internamente não nos entendemos. Bjs.

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