Frida, sempre Frida

Frida, sempre Frida

O que torna uma pessoa inesquecível? Que tipo de personalidade faz com que ela vire um símbolo para as próximas gerações? Sempre me pego pensando nesse tipo de pergunta quando lembro de Frida Kahlo. Nenhuma mulher pode se dar ao luxo de dizer que não conhece Frida, já que sua imagem – à semelhança de Che Guevara – estampa bolsas, agendas, enfeites de decoração vintage e também tatuagens. Tem gente que conhece só de nome. Outras, como eu, devoram qualquer informação sobre a vida da pintora, tentando desvendar o porquê de ela ter se tornado essa referência.

Apesar de simpatizar com a figura de Frida desde nova, só passei a conhecer sua história ao ler sua biografia. As cartas e pinturas da artista, junto com uma descrição detalhada da sua trajetória, me deram algumas pistas sobre a sua personalidade. O retrato que comecei a montar se fez mais completo quando conheci Coyoacán, distrito da Cidade do México onde Frida nasceu e viveu boa parte da sua vida. Ao observar que a tranquilidade das ruas de casas coloniais coloridas de Coyoacán contrastava com a agitação frenética dos outros bairros da cidade, me lembrei das próprias incongruências da vida pessoal da pintora mexicana.

Nascida em 1907, Frida Kahlo teve uma vida transformada pelo acaso. Ferida após um acidente entre um ônibus e um caminhão, Frida passou meses deitada em uma cama, tendo que se adaptar a uma rotina de dores constantes. A jovem encontrou na pintura uma forma de lidar com a renúncia ao mundo exterior. As pinceladas melancólicas, que expressavam as suas dores, se tornariam a sua marca.

A saúde fragilizada acompanharia Frida durante toda a sua vida, restringindo seus movimentos. As experiências amorosas, tampouco, a pouparam de sofrimentos. A artista viveu uma relação conturbada com o pintor Diego Rivera, com direito a traições e abusos emocionais. A dependência emocional por Diego, com quem foi casada durante anos, e as frustrações e brigas do casal deram-lhe mais motivos para pintar suas emoções.

As duas Fridas, 1939. Fonte: HERRERA, Heyden. Frida: a biografia. São Paulo: Globo, 2011.

Os infortúnios que lhe aconteceram ao longo da vida despertaram o melhor e o pior de Frida, a consagrando como uma pintora real e humana. Frida foi capaz de transformar dores e imperfeições em combustível para a sua arte. Ela ganhou minha simpatia justamente por misturar força e fragilidade numa mesma pessoa. Ao mesmo tempo em que era resiliente aos percalços da vida – levantando cada vez mais forte após cada tombo – havia momentos em que Frida se deixava dominar pelo caos e pelo desgosto. Autêntica e irreverente, por vezes ela também precisava se sentir acolhida e amada. Não há nada mais humano do que isso, não?

Acredito que o fato de conseguir abraçar suas imperfeições e fazer algo produtivo delas transformou Frida em um símbolo para a nossa geração. Num mundo em que somos pressionadas e nos pressionamos diariamente a ter um corpo perfeito, um casamento feliz e um emprego dos sonhos, respeitar as nossas singularidades se tornou um ato revolucionário. Frida nos ensina a aceitar que a vida e as pessoas não precisam e não são perfeitas. Existe uma beleza singular nas nossas cicatrizes e extravagâncias que insistimos em esconder. São essas pequenas peças, nem sempre bonitas ou agradáveis, que nos fazem ser quem nós somos. E que nos distinguem dos outros.

A resiliência e a autenticidade de Frida têm raízes na própria cultura mexicana. A vontade de existir (e resistir) está presente em cada esquina, museu e estação de metrô da Cidade do México. Ainda que as tentativas de dominação sejam frequentes, o orgulho de ser mexicano – e de carregar, em suas veias, culturas indígenas milenares – sempre pulsa mais forte.

Frida, em particular, encarna o poder que as mulheres têm de sobreviver e de lutar por uma vida melhor. Não é por acaso que a sua figura é associada ao feminismo contemporâneo (apesar de existirem controvérsias sobre isso). Feminista ou não, Frida me inspira – e aposto que inspira outras tantas mulheres – a encarar a vida de frente e a tentar ser a mais autêntica possível.

Conheça mais sobre Frida:

As faces de Frida, projeto do Google Arts & Culture, reúne pinturas da artista e interpretações de especialistas sobre o seu legado.

HERRERA, Hayden. Frida, a biografia. São Paulo, Globo: 2011.

 

AuthorNatália Flores

Jornalista, sou movida pela curiosidade sobre o mundo e a vida. Tenho um pé (ou quase dois) na pesquisa e na sala de aula e vejo essas práticas como transformadoras. Inquieta, problematizadora, sempre em transformação. Acredito que o mundo está aí pra ser descoberto – e questionado.

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