Sobre a representatividade trans na política

Sobre a representatividade trans na política

Legenda foto: Georgina Beyer, primeira mulher trans eleita para um parlamento

De acordo com dados de 1º de setembro de 2018 da Inter-Parliamentary Union, as mulheres são maioria em apenas três dos 193 países pesquisados. A liderança do ranking cabe à Ruanda com 61,3% da câmara baixa. Em seguida, praticamente empatados, Cuba e Bolívia, com, respectivamente, 53,2% e 53,1%. O Brasil aparece em um vergonhoso 156º lugar com 10,7%, atrás, inclusive, da Coreia do Norte (que possui 16,3% de mulheres em seu parlamento e está em 125º lugar) e, pasmem, da Arábia Saudita (que tem 19,9% de mulheres compondo o parlamento e aparece em 101º lugar), um país ultraconservador no que concerne aos hábitos femininos.

Desnecessário salientar que os dados acima citados referem-se às mulheres cisgêneras. São pouquíssimos os casos de pessoas trans em parlamentos mundo afora. A neozelandesa Georgina Beyer, por exemplo, foi a primeira trans eleita para um parlamento em 1999 por Wairarapa com 3.033 votos. Em 2002, foi reeleita com 6.372 votos.

Quando se fala de Brasil, houve um acréscimo significativo de candidaturas de pessoas trans de 2012 para 2016. De 31 para 84 candidaturas. De acordo com matéria do sítio NLucon, 10 se elegeram! Uma delas, aliás, em Cruz Alta, aqui no Rio Grande do Sul.

Candidatas trans também tiveram votações expressivas no Rio de Janeiro, em São Paulo, Campinas, Salvador, Curitiba, Aracaju e Belo Horizonte. Porém, isso não significa que estes números sejam motivos para se comemorar, pois há muito o quê ser feito em termos de representação política de pessoas transexuais.

Nas eleições de 2016, por exemplo, o PSOL apresentou duas candidatas trans à prefeita: Samara Braga, em Alagoinhas (BA) e Thiffany Félix, em Caraguatatuba (SP). Apesar de não terem feito votações expressivas, ambas entraram para a História da Política brasileira como as primeiras candidatas trans à prefeitas.

O fato é que as pessoas trans precisam conquistar mais espaço na política. E essa conquista não se dá apenas desconstruindo dogmas e preconceitos mas passa também por uma postura ética e um comportamento adequado. Aliás, é bom “desenhar” sobre quando me refiro a comportamento adequado para que não pairem dúvidas. Isso não significa que você não possa levar a vida de acordo com suas necessidades e convicções. Mas sim que, dentro do meio político, é preciso se ter uma conduta exemplar nas relações interpessoais.

A razão é muito simples: se você quiser ser respeitada dentro de um espaço transmisógino como a política, é preciso dar o exemplo como meio de autodefesa. Afinal, a empatia e a educação, em geral, desarmam pessoas que possam ter opiniões formadas acerca de assuntos que coloquem vocês em lados diametralmente opostos. Agora, se o seu estilo for “barraqueira”, sinto muito, mas, infelizmente, você não conseguirá transpor certas barreiras, nem, tampouco, ser reconhecida e ocupar este espaço com força política suficiente. Você até poderá conquistar um certo espaço, mas este será limitado e restrito.

Sabemos, infelizmente, que a política é a arte de conquistar inimigos, e também de engolir sapos, porém, acima de tudo, precisamos ter bom senso ao agirmos para que possamos desarmá-los e superar os obstáculos que certamente irão nos impor.

Até lá, não podemos descansar, pois urge que ocupemos espaços em todos os níveis dentro de todos os Poderes da administração pública. Porque apenas quando elegermos nossos próprios representantes poderemos conquistar de fato nosso lugar de fala no meio político sem a necessidade de intermediários e porta-voz, os quais, infelizmente, nem sempre estão preparados para atender às nossas demandas.

Nossa colaboradora escreve nos blogs A Arte de Ser Luíza e Casa da Mãe Joanna

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