Poderia ter sido eu

Poderia ter sido eu

Poderia ter sido eu. Poderia ter sido qualquer uma de nós. Simplesmente por sermos mulheres andando sozinhas pelas ruas já andamos com medo. Ainda meninas aprendemos a procurar o lado mais iluminado da rua para andar. Aprendemos a andar mais em direção a rua do que das casas, porque se tiver alguém escondido pelas calçadas, atrás de uma árvore, escorado em um muro, escondido pela falta de luz, corremos em direção aos carros. É mais seguro.

Sabemos que nos julgam pela roupa que usamos, o short é curto, então ela tá pedindo. Não meus amigos, ninguém está pedindo para ser estuprada. Apenas gostamos de usar short. Esse medo sempre tivemos, ainda temos. E lutamos justamente para que as nossas meninas não tenham esse medo. Lutamos para que os nossos meninos não cresçam machistas e não pensem que existem mulheres que mereçam ser estupradas ou que estão pedindo por que a roupa é curta.

Mas agora, é ainda pior. O medo é maior. O medo é real. Nos atacam pela frase de nossa camiseta, pelo adesivo em nossa roupa. Ou por uma fitinha arco-íris pendurada na mochila. Se dizem homens de bem que querem mudar o país. Mas estão nas ruas agarrando a força, soqueando, espancando, esfaqueando, violentando inocentes.

Há poucos dias, caminhei de uma atividade próxima ao largo Zumbi até a UFRGS onde teria a próxima atividade. Pra quem conhece, sabe que o trajeto é curto. Não tem ônibus para tão perto. E nem lógica pedir um Uber. Fui a pé. Com uma camiseta que dizia mulheres pela democracia e um adesivo que dizia Haddad 13. Caminhei sempre próxima de outras pessoas. Mas admito, que por uns 200 metros andei só. Não haviam mais outras pessoas. Tive medo, um medo real de ser atacada simplesmente por ser quem sou, por praticar meu direito de ir e vir, praticar meu direito à liberdade de expressão. Acho que naquele momento, se tivesse um casaco comigo, teria escondido a camiseta e o adesivo.

Tudo correu bem. Mas no dia seguinte, uma menina, poucos anos mais nova que eu, caminhava pela Cidade Baixa, relativamente próximo de onde eu estava. Dois homens a seguraram, um a marcou com uma suástica na barriga. Só porque estava com uma camiseta escrita Ele Não. Meu dia terminou quando a li a notícia. Não consegui produzir mais nada. Não consegui mais sorrir. Poderia ter sido eu. E se tivesse sido eu? As pessoas também achariam que no fundo eu inventei, que apenas me mutilei? Poderia ter sido minha prima que vai e volta da faculdade adesivada. Poderia ser eu ao descer da parada de ônibus e ter que caminhar uns 400 metros até em casa.

Na verdade, ainda pode ser qualquer uma de nós. Qualquer pessoa que queira se expressar. Eu tenho medo. Sim, eu tenho um medo que eu nunca senti antes. Mas não me calarão, porque é isso que eles querem: nos calar. Temos que tomar muito cuidado, sim, de fato, é preciso atenção, é preciso precaução, mas não podemos nos intimidar e deixar de sair de casa ou de nos manifestar. Juntas somos mais fortes e é assim que precisamos andar. Porque como diz a canção: “Eu sozinha ando bem, mas como você ando melhor”.

Vamos exercer nossa liberdade agora, vamos exercer nossos direitos agora. Mesmo com o medo. Porque ainda há tempo de virar o jogo, de mudar a eleição. Não elejamos alguém que incita a violência. Alguém que quer ferir a nossa existência. Não devemos nos calar e nem ficar neutros, porque quem faz que não vê, não ouve ou não sente, está consentindo com a ação do opressor.

Juntas e juntos podemos mudar essa realidade. Pois como dizia Quintana: “Eles passarão. Eu passarinho”. Eles vão passar e nós seguiremos voando, livres, felizes, em luta.

AuthorJulia Lanz

Tenho 23 anos. Curso jornalismo e trabalho com assessoria de comunicação na área política. Milito no Intervozes, coletivo que luta pela comunicação como um direito humano. Cresci numa família militante de esquerda, me tornei uma feminista e indignada com as injustiças do mundo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *