Pelo direito de resistir

Pelo direito de resistir

A campanha eleitoral que acabou no último domingo foi, sem sombras de dúvida, uma das mais desgastantes dos últimos anos. Sentimos na pele os ânimos acirrados, a desunião e o ódio presentes nas discussões políticas entre pessoas próximas. Saímos despedaçadas, emocionalmente esgotadas. Incrédulas, vimos forças conservadoras ganharem cada vez mais espaço no pleito político. A ideia de que os direitos das mulheres nunca estão garantidos se tornava palpável diante dos nossos olhos. Governos com pautas conservadoras podem colocar em risco uma série de direitos conquistados por e para todas nós. E podem travar outros tantos que queremos conquistar (como o direito de decidirmos sobre o nosso próprio corpo). Quem duvida?

Nós, mulheres, banalizamos muito os nossos direitos políticos. Achamos normal sair para votar no domingo de eleição, e não percebemos que nem sempre tivemos o direito de escolher nossos representantes políticos. Não faz nem um século que o voto feminino foi instituído no Brasil. Apesar do poder do nosso voto estar sendo progressivamente reconhecido, avançamos muito pouco desde então.

As reflexões sobre o papel da mulher na política ainda são muito frágeis. Ainda temos que convencer muitas pessoas da importância de se ter mulheres em cargos políticos, verdadeiramente comprometidas com pautas feministas. Ganhamos espaço momentâneo nos discursos dos candidatos à eleição. A preocupação em se aproximar da parcela feminina dos eleitores nunca foi tão explícita. Somos muitas, afinal. Se sincronizados, nossos votos poderiam, facilmente, decidir o rumo das eleições. No entanto, algumas dúvidas pairam no ar. Até que ponto a preocupação em agradar as eleitoras é genuína? Nossas demandas estão sendo levadas em conta? Esse gesto modifica o nosso papel na política?

O fato das chapas terem candidatas à vice presidência deixou claro que não são todos os espaços que as mulheres podem ocupar. Continuamos sendo vistas como coadjuvantes no processo político. No máximo, servimos para vice. E, em muitos casos, só estamos ali para conquistar a simpatia dos votos femininos. É muito pouco diante de tudo o que precisamos conquistar. Ainda assim, aceitamos. Baixamos a cabeça e aceitamos. Nos contentamos com migalhas.

A montanha-russa de emoções negativas dos últimos meses me fez perceber o quanto nossa luta por mais espaços políticos é importante e urgente. E que ela está mais viva do que nunca. É necessário resistir aos retrocessos que nos aguardam ali do outro lado da esquina. Temos que garantir que o pouco que conquistamos não nos seja retirado. Precisamos de representantes comprometidos com a causa feminista e de outras minorias sociais. Merecemos que nossas vozes sejam ouvidas. Não só em época eleitoral.

AuthorNatália Flores

Jornalista, sou movida pela curiosidade sobre o mundo e a vida. Tenho um pé (ou quase dois) na pesquisa e na sala de aula e vejo essas práticas como transformadoras. Inquieta, problematizadora, sempre em transformação. Acredito que o mundo está aí pra ser descoberto – e questionado.

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