Só papai e mamãe?

Só papai e mamãe?

Mãe, o que exatamente é sexo?

O frio na boca do estômago apareceu. Aquela certeza que é necessário fazer a escolha: correr ou enfrentar. A pergunta veio num final de tarde em que estávamos sozinhas. Pelo momento, a solidão da casa, o tempo e nenhum assunto anterior que levasse a questão, pela gravidade no tom de voz, pelo tanto que conhecemos os filhos, tive certeza que não era uma pergunta ao acaso. Era uma indagação ensaiada, preparada há algum tempo, para começar um assunto do qual eu não tinha certeza onde pararia. Um assunto que não queria tratar naquele momento. Não era a primeira, nem a segunda ou a terceira pergunta relacionada a sexo; porém, as anteriores eram mais objetivas e foram sempre respondidas de forma objetiva, com o grau de informações que a idade comportava. Desta vez o tom me dizia que era necessário um pouco mais de atenção.

Em segundos muitas coisas passaram pela minha cabeça e, tenha certeza, a vontade de correr foi grande. Qualquer desculpa poderia encerrar o assunto e trazer conforto para meu estômago. Entretanto, o peso da responsabilidade veio forte. O medo de que uma porta não aberta neste momento poderia tornar-se uma porta fechada em outro fez com que eu olhasse para a pequena e me abrisse para aquela conversa que ela estava pedindo para ter.

Vamos lá! Quais são exatamente as tuas dúvidas?

Obviamente o frio na barriga não veio das questões que uma menina poderia trazer. Veio do medo de errar em um assunto que a responsabilidade é minha. A responsabilidade é do papai e da mamãe, não é mesmo? A escola interfere o menos possível em um tema que deveria perpassar toda a educação. A escola trabalha alimentação saudável desde os primeiros anos da criança. Está certo. Cultura alimentar é algo que fará toda a diferença na vida do ser humano e não pode ser responsabilidade apenas de pais e mães, pois a cultura familiar pode ser problemática. As crianças não entendem como funciona a absorção dos nutrientes no seu organismo, mas entendem que precisa comer maçã. Aos poucos, podem questionar os padrões familiares e auxiliar os próprios pais a qualificarem a alimentação da família. Isso busca combater a obesidade e os futuros distúrbios alimentares. É questão de saúde pública. Nunca vi alguém questionando se a escola deveria fazer essa interferência.

Sexualidade também perpassa a vida inteira do indivíduo. Porém, é colocado como um assunto a ser evitado na escola. É parte do indivíduo, não é algo que nascerá quando houver desejo sexual ou quando transar pela primeira vez. Conhecer o corpo, suas mudanças e processos é importante. Ninguém questiona a importância de estudar a mitocôndria, mas saímos da escola sem entender a anatomia da vagina. Estudamos o mecanismo de funcionamento dos ovários, mas não a vagina.

Sexo perpassa a vida, educação sexual também deveria perpassar. Eu não deveria me sentir tensa por ser a única responsável por passar para a minha filha a importância de respeitar seu corpo. Que sexo não é ato sexual. Eu não ficaria tensa se eles perguntassem sobre movimentos celulares, apesar de a minha capacidade de ter respostas ser infinitamente inferior nesse tema. Porém, não tenho dúvidas de que, se eu não der as melhores respostas, ela terá uma longa construção paralela na escola que auxiliará a corrigir minhas falhas na construção do conceito de pseudópodes.

Quando sexualidade é o tema, no entanto, tenho a sensação de oportunidade única de passar uma mensagem construtiva, visto que não vejo muitas parcerias nesta construção. Com frequência, as informações midiáticas que chegam — e chegam cada dia mais — são distorcidas e equivocadas, carregadas de machismo e preconceito ou descoladas da realidade da nossa juventude.

Por mais que em diversos momentos queiramos que nossos filhos sejam eternas crianças, em algum momento elas crescem e tornaram-se sexualmente ativas. Isso acontece um mundo em que DSTs são consideradas epidemias  (cadê Capricho???), em uma sociedade em que sexo e estupro não são diferenciados. Adoraria nesse momento ter opções, mas não temos. Além de auxiliar os meus filhos a ter uma relação saudável com seus corpos, preciso prepará-los para se relacionar com outros seres humanos que estão sendo ensinados que menstruação é feia e que o corpo é sujo. Ainda assim, em algum momento eles serão sexualmente ativos, sem qualquer construção positiva de respeito e consentimento, com relações inundadas de masculinidade tóxica. Crianças que não contam com a educação sexual na escola e não terão com quem conversar. Logo, meu frio na barriga é ignorado e vamos lá saber quais as dúvidas estão rondando as cabecinhas.

 

Se você acredita que essa temática deve ser apenas responsabilidade da família, sugiro “dar um google” e se chocar com o número de casos de abusos cometidos por familiares. Não farei isso por você, porque hoje meu estômago está fraco.

AuthorRe Zardin

Acredito na educação como aliada na desconstrução de papeis de gênero e na necessidade de políticas públicas para a garantia de direitos humanos. Nasci no início dos anos 80, adoro ouvir pessoas e suas diversidades. Na maternidade descobri o feminismo como meu foco na luta social.

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