Enquanto o tempo parou

Enquanto o tempo parou

Estava sentada na sala da casa de madeira de minha avó há mais de 100km da capital. Olhávamos o relógio de corda que tem décadas e décadas de existência no mínimo. Há certo tempo ele está parado. Fui dar corda e ajustar para que o tempo voltasse a passar. Enquanto esperava para ver se havia dado certo, enquanto o tempo não andava pra frente naquele relógio cuco na parede, retornei ao passado, em pensamentos.

Me veio à mente algumas semanas atrás. Estava também há mais de 100km da capital do estado, mas dessa vez no litoral. Estava na casa de meu pai. E em um dia lindo de praia conversávamos a beira mar sobre familiares mais velhos, fomos chegando ao ponto dele contar histórias que ouviu criança sobre pessoas da família que ele nem conheceu, contadas por pessoas da família que eu nem conheci.

Foi então que me dei conta do quanto eu não sei da minha história. Dos meus antepassados. Nomes desconhecidos, origens desconhecidas, imagens desconhecidas. Histórias que nunca serão contadas porque quem poderia contar e responder minhas curiosidades não estão mais aqui.

Há os que dizem que uma de minhas tataravós era negra, escrava e tentou fugir ao Quilombo mas não conseguiu. Há os que dizem que na verdade ela era uma “bugra”, uma índia rebelde que era acorrentada para se “aquietar e obedecer”. No outro lado da família sei que houveram alemães que vieram para o Brasil e nossa origem vem de lá. Mas não sei se foi algum tataravô ou tataravó, ou se foram seus pais ou avós que vieram.

Quanto mais procuro respostas, mais encontro perguntas. E que pena que antes de mim ninguém se questionou ou resolveu ir atrás de respostas. Eu mesma passei a me dar conta de como o tempo passa rápido, as pessoas se vão e não sabemos dos nossos antepassados por causa de uma conversa ocorrida ao acaso que desencadeou tudo isso.

Como compreender quem somos sem conhecer os que vieram antes de nós e contribuíram para quem somos hoje? Quem não tem memória, que não conhece a sua história, não consegue aprender lições com erros do passado, não consegue se colocar no lugar de quem viveu momentos x ou y e não consegue evoluir. Como criticar que isso ocorra com a nossa sociedade quando pensamos em contexto de país, se não conseguimos fazer isso com a nossa própria família?

Se eu me colocar no lugar da minha possível tataravó negra escrava será que eu não vou sentir um pouco de sua dor e compreender o que é ser negro/a em nosso país nos tempos atuais, já que a abolição acabou logo ali atrás e sem nenhuma reparação histórica? E se a minha tataravó realmente tiver sido uma índia rebelde que foi acorrentada? Imagino o que se passava com a mente dela, com a vida dela, com a cultura e tudo mais ao ver que homens brancos com uma cultura completamente diferente invadiram o lugar que sempre foi seu e de seus antepassados. E o meu avô que foi Maragato na revolução farroupilha? O que se passava em sua cabeça? O que o fez se tornar um deles? E os meus antepassados alemães? Será que vieram fugindo da primeira ou da segunda guerra? Ou muito antes disso talvez… O que fez eles virem ao Brasil? O que pensavam sobre o nazismo?

São tantas perguntas não respondidas. Sãos tantas que sigo tentando encontrar respostas. É a esperança de que os mais velhos ainda vivos possam contribuir com a minha história e que a gente possa registrar tudo para deixar de legado aos que virão depois de nós.

Eis que o sino bateu, o ponteiro girou, o tempo voltou a passar. Mas mesmo com o tempo correndo, aquele velho relógio na parede não me deixa esquecer o passado. Esse pensamento todo não ficará só naquele instante em que o tempo parou.

Vem comigo nesse desafio? Vamos descobrir nossas Histórias? Vamos tentar compreendê-las e nos tornarmos pessoas melhores a partir do que descobrirmos?

AuthorJulia Lanz

Tenho 23 anos. Curso jornalismo e trabalho com assessoria de comunicação na área política. Milito no Intervozes, coletivo que luta pela comunicação como um direito humano. Cresci numa família militante de esquerda, me tornei uma feminista e indignada com as injustiças do mundo.

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