E se eu não sou quem me ensinaram a ser?

E se eu não sou quem me ensinaram a ser?

O enxame de notícias falsas sobre a erotização de crianças e livros pra lá de duvidosos na campanha eleitoral de 2018 me fez pensar sobre a origem dessa fake news. Por volta de 2004 surgiu o projeto “Escola sem Homofobia“, uma cartilha que propunha promover “valores de respeito à paz e à não-discriminação por orientação sexual”. Em 2011, quando o projeto estava prestes a sair do papel, a pressão de grupos religiosos fez com que fosse vetado e jamais chegasse a qualquer escola.

Com uma breve pesquisa no Google, qualquer pessoa pode ter acesso ao conteúdo das cartilhas, que muito se difere do livro apresentado por Jair Bolsonaro em diversos momentos da campanha. Agora que o seu governo começa a se consolidar, mais do que nunca, acho importante chamar a atenção para um ponto que ninguém deu a devida relevância durante o período eleitoral.

A escola é o principal meio social da criança e do adolescente. É lá que criamos nossas primeiras amizades, que surgem os primeiros romances. É lá que passamos a nos entender como seres sociais. Isso independe se tu é gay, lésbica, bi ou heterossexual, vai ser na escola que tu vai aprender não só matemática e história, mas a como se relacionar com o outro.

Quando dizem que falar sobre gênero e sexualidade pode influenciar as crianças a se tornarem isso ou aquilo, sempre penso em tudo que me foi introjetado durante a minha infância e adolescência. A heterossexualidade nos é imposta desde o momento em que nascemos. Na televisão, os casais são sempre de homens e mulheres, nos livros a mesma coisa. Os filmes e animações também não diferem dessa lógica. Absolutamente tudo ao nosso redor diz quem devemos ser e com quem devemos nos relacionar.

No momento em que tu começa a perceber que talvez não se encaixe nesses padrões, teu mundo desmorona. Não é fácil se descobrir não-heterossexual durante o período escolar. É uma merda. Quando eu percebi que de fato estava apaixonada por uma menina e o que eu sentia por ela não era uma mera amizade, a homofobia já estava dentro de mim, o sentimento de repulsa fez com que a minha primeira reação àquilo fosse de negação, da necessidade de sufocar tudo que eu pudesse sentir por ela. Foram anos tentando abafar. Foram anos tentando me adequar ao que a sociedade esperava de mim e ao que me foi ensinado.

Dizer que falar sobre orientação sexual e gênero na sala de aula é erotizar as crianças só mostra o quão ignorante e egoísta nossa sociedade é. Pois é a mesma sociedade que pergunta pra criança como estão os “namoradinhos” (na creche, eu mesma tinha dois), que coloca em roupas de bebês o quão garanhão aquele menino vai ser, que proíbe meninas de usarem shorts curtos pois tiraria a atenção do professor e dos colegas. Isso é erotização. Debater sexualidade e gênero é ensinar sobre respeito e aceitação.

De todas as coisas que se negam aos homossexuais, a mais cruel é a adolescência. Eu nunca mais vou poder viver aqueles anos que passei negando quem eu era, tentando ser o que eu jamais fui. Tenho certeza que se me fosse mostrado que outra realidade era possível, que amar outra mulher é completamente normal, que não havia nada de errado comigo, eu não teria passado por muitas coisas que me submeti nos tempos de negação.

A “Escola sem Homofobia” era um projeto importantíssimo, essencial eu diria. Se desde crianças aprendêssemos a respeitar o diferente, nosso país não estaria do jeito que está. O problema nunca foi falar sobre sexualidade, o problema é a nossa homofobia.

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One reply to E se eu não sou quem me ensinaram a ser?

  1. Qualquer maneira de amar vale a pena. Bjs

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