Por uma vida mais autêntica

Por uma vida mais autêntica

Sentar no gramado de um parque lendo um livro com os pés descalços, sentir o sol e a brisa do mar numa caminhada pela praia, aproveitar as noites de verão para olhar as estrelas. Por muito tempo, esses momentos foram a minha definição de felicidade.

Conforme a gente vai crescendo, a vida real se impõe. Criamos uma ânsia de querer sempre progredir. Traçamos planos pessoais e metas profissionais segundo o calendário. Projetamos o que queremos ser e ter daqui a cinco, dez, quinze anos.

Se seguirmos direitinho o passo-a-passo das carreiras de sucesso, chegaremos a esse lugar melhor, mais estável e, consequentemente, mais feliz. Para isso, compramos um apartamento ou casa, um carro, nos damos de presente uma festa de casamento de arromba e um guarda-roupa cheio de roupas bonitas.

Para sustentar nossos sonhos de consumo, mergulhamos numa rotina pesada, em que sobra pouco tempo para respirar. Viramos pessoas ansiosas. Tudo em nome da suposta realização que teremos daqui a alguns anos, quando cumprirmos nossas metas. Experiências que não se encaixam nessa lógica da eficiência para atingir esse lugar – a praia, os livros, os sonhos – são colocadas em um segundo plano. Afinal, quando chegarmos nesse lugar ideal, sobrará tempo para aproveitarmos essas coisas, certo?

A vida, no entanto, não segue scripts. Nem nossos desejos e sonhos, por mais que tentemos encaixá-los num sistema pré-moldado. Não somos robôs. Existe algo da experiência humana que escapa da lógica do mercado de consumo.

Assim, talvez aquele emprego dos sonhos te traga mais estresse do que satisfação. Talvez a vida de comercial de margarina te traga mais tédio do que felicidade. Não existe regra. Aliás, a única regra que existe é a de que desejos padronizados têm uma grande chance de dar errado.

Uma vida mais autêntica passa pela aceitação da nossa natureza imprevisível e, por isso, humana. Precisamos nos reconectar com as nossas emoções e paixões e deixar que elas conduzam o caminho. Confiar nos nossos desejos antigos e interpretar os sinais da vida talvez nos levem a lugares mais interessantes e reais. Afinal, a vida tem um sentido mais amplo do que somos capazes de entender.

Áudio do texto “Por uma vida mais autêntica e real”, de Natália Flores no blog Mosaicos Feministas.

AuthorNatália Flores

Jornalista, sou movida pela curiosidade sobre o mundo e a vida. Tenho um pé (ou quase dois) na pesquisa e na sala de aula e vejo essas práticas como transformadoras. Inquieta, problematizadora, sempre em transformação. Acredito que o mundo está aí pra ser descoberto – e questionado.

4 replies to Por uma vida mais autêntica

  1. Gostei muito, Nati! Nossos planos nunca contam com o entorno, é como se dependessem exclusivamente de nosso foco e nosso esforço e aí a vida vai acontecendo… chega um amor inesperado, uma gravidez, uma dificuldade de saúde em nós ou nas pessoas que nos são caras, uma política de governo que tranca a próxima meta… São tantas as variáveis externas e independentes que planos bem fechados tendem a se tornar desilusões e ir amargurado a vida. Planos são bons, mas flexibilidade é importante. Mais estrelas e areias na vida, né? Te amo!

    • Sim, tia! Isso mesmo =) É uma tarefa difícil, mas fico tentando me reprogramar constantemente hehe

  2. Natália, concordo contigo. Trabalhei muito, exaustivamente, durante anos, até que a minha saúde se deteriorou. Então tive que diminuir o ritmo. Felizmente, estava em idade de aposentar-me. Claro que os vencimentos da aposentadoria não atingem o patamar em que eu me encontrava, mas agora tenho tempo para cultivar temperos, fazer um almoço caprichado quando tenho vontade, ou almoçar fora quando não tenho. Voltei a bordar, coisa que gosto muito de fazer, e “perder tempo” curtindo o por do sol…
    Percebi que minha saúde física e mental é bem mais importante que juntar dinheiro e coisas.

    • Que legal que se identificou com o texto, Gladis! Eu, que recém estou no início da minha trajetória profissional, me pego pensando, vez ou outra, nisso. Acho que é saudável manter uma crítica com relação a esse sistema e o quanto ele nos “escraviza”, de certa maneira, em um estilo de vida, né? Legal saber que tu conseguiu reconfigurar a tua vida =)

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