A potência de não pertencer

A potência de não pertencer

Quem te inspira a continuar lutando? Não no sentido mais extraordinário da palavra, de enfrentar adversários. Lutar no sentido de viver mesmo. De manter as contas em dia, o ânimo com o emprego, os filhos bem vestidos, a casa organizada e – o mais importante – de achar sentido nisso tudo. De ter um projeto de vida que te faça feliz e seguir em frente sem se importar com o que possam pensar ou falar. Manter a nossa verdade, numa sociedade que se alimenta de tantas formas de preconceito, se torna uma batalha diária. Principalmente se, para isso, precisemos romper com padrões.

Desenvolvemos a capacidade de resistir à força, como tática de sobrevivência, para encarar um mundo hostil feito para homens. Aos poucos, o sentimento de desajuste, de não se encaixar em nenhum lugar, se transforma em combustível de vida. O entendimento de que a vida de bela-recatada-e-do-lar não era pra elas fez Rosa Luxemburgo, Marie Curie, Malala e tantas outras lançarem-se a outros mundos. Com seus projetos, elas desafiaram a si mesmas e aos outros, mudando a concepção do que se espera de uma mulher.

Conquistamos o direito a ocupar bancos das universidades, partidos políticos e outros lugares da esfera pública com muita luta, pois o mundo nunca está preparado para nos dar os espaços que queremos. Neste percurso, a autoconfiança se transformou em escudo, evitando que as mulheres desistissem diante de interdições e críticas alheias.

Confiar em nós mesmas é vital diante de uma realidade em que nossa competência é testada o tempo todo. Mesmo assim, pouco aprendemos a acreditar no nosso potencial. A menos que dê algum lucro, pessoas que pensam fora da caixa, que baguncem as dinâmicas de poder, propondo outros valores, são tidas como inconvenientes. Pra que mexer em time que está ganhando, não é mesmo? Se não fazemos parte desse time, deve ser porque temos algum defeito de fábrica muito grave.

Passamos a nos definir pelo olhar dos outros, acreditando em verdades que não são nossas. Duvidamos da nossa capacidade e, vez ou outra, nos repreendemos com crueldade. Apagamos nossas características mais interessantes na esperança de pertencermos a algum lugar.

Não percebemos, no entanto, que o errado nesta história toda é o sistema. Ele é o responsável por produzir sofrimento, ao exigir que pessoas com identidades tão diversas se encaixem em um mesmo molde. Olhando para essa dinâmica, fica fácil entender a importância que a representatividade tem no combate a essa falta de diversidade. Mulheres cientistas, empresárias, políticas negras e transgênero mostram a meninas com diversas histórias de vida que é possível chegar mais longe. E que nossa identidade deve ser potência e não limite.

A potência de não pertencer, por Natália Flores

AuthorNatália Flores

Jornalista, sou movida pela curiosidade sobre o mundo e a vida. Tenho um pé (ou quase dois) na pesquisa e na sala de aula e vejo essas práticas como transformadoras. Inquieta, problematizadora, sempre em transformação. Acredito que o mundo está aí pra ser descoberto – e questionado.

One reply to A potência de não pertencer

  1. Muito bom, Natália!

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