Maju e o surto da Casa Grande

Maju e o surto da Casa Grande

Precisou meio século para que o principal telejornal do país tivesse, enfim, a sua primeira âncora negra. Mesmo ainda não sendo a “titular”, Maria Júlia Coutinho, a Maju, foi promovida mês passado para a bancada do Jornal Nacional. Ela que já exibia todo seu carisma e profissionalismo frente a previsão do tempo no jornal.

A notícia foi muito vibrada, principalmente por aqueles a quem Maju representa, os negros e negras. Junto disso veio o surto da Casa Grande, de alguns sinhás e senhores. Sim, o Brasil ainda tem muitos brasileiros com síndrome de Brasil Colonial, que tentam de toda maneira desmerecer a nossa conquista. Nas redes sociais surgiram desonestas comparações e montagens de outros jornalistas negros como Zileide Silva, Haroldo Costa e a pioneira Glória Maria. Esta última que foi a primeira repórter negra da televisão brasileira, e pasmem, nos anos 80.

Os jornalistas aí citados são todos brilhantes, sim, e merecem destaque. Porém, nenhum deles, tirando Haroldo Costa – que é homem – conseguiu ocupar a bancada do Jornal Nacional. E mais, como essa gente não acha estranho poder contar nos dedos quantos jornalista negros há frente de bancadas de jornais televisivos da Globo? Enquanto faltam mãos e pés para contabilizar o número de brancos na mesma posição? Sabe porquê? Porque negros em posição de destaque, mesmo que em minoria, fazem os ex-habitantes da Casa Grande surtarem.

Ver Maria Júlia ali, naquele sábado, fez meu coração transbordar, principalmente pelo fato de eu ser jornalista. Vê-la, ali, dando cor àquela bancada com seu crespo, me remeteu ao final da minha vida acadêmica. O meu trabalho de conclusão de curso foi sobre “A Percepção das Acadêmicas Negras de Jornalismo Quanto ao Futuro no Telejornalismo”. Eu queria responder se minhas colegas de curso que, contando comigo na época eram sete, se viam representadas no telejornalismo e se o fator raça estava envolvido em suas percepções.

Claro que a maioria respondeu que não gostavam do telejornalismo pelo fato de não se identificarem com a área do jornalismo televisivo. Mas, no momento em que foram questionadas acerca da representatividade, a resposta foi unânime: nenhumas delas se via naquele espaço. Ainda assim, elas citaram nomes como o da Maria Júlia e de Glória Maria. Entendem agora o poder da representatividade de Maju naquela bancada? Conseguem perceber que demorou 50 anos para uma de nós estar ali? Em posição de quem noticia e não de quem é noticiada?

Por hora, estamos longe de uma equidade no jornalismo e talvez esse equilíbrio nunca vá acontecer. Mas, mesmo assim, seguimos resistindo, ocupando espaços e causando desconforto na branquitude, sim. E se o incômodo acontece é porque o racismo é mais estrutural do que imaginamos. Mas a Casa Grande jamais vai nos empurrar para a senzala novamente. Não ficaremos mais atrás das câmeras.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *