Racismo estrutural e a colonização do outro

Racismo estrutural e a colonização do outro

No último final de semana, assisti a The Green Book, filme que ganhou o Oscar esse ano. Para além das críticas bem fundamentadas sobre o protagonismo branco ganhar destaque numa história sobre racismo, a narrativa toca numa ferida dolorosa para todos nós: estamos carentes de afeto e, paradoxalmente, cada vez mais intolerantes. A sensibilidade de olhar o outro, olho no olho, de nos abrirmos para um encontro verdadeiro fora das redes sociais, está cada vez mais rara. Ainda mais se esse outro encarna o nosso completo oposto em nível de crenças religiosas, ideologia política ou trajetória de vida.

Não lidamos bem com o diferente. Fomos criados numa sociedade já estruturada, que posiciona indivíduos em espaços sociais bem delimitados. Durante a nossa vida, convivemos com pessoas com o mesmo padrão de vida, formação, preconceitos, ideias e expectativas de vida parecidos com os nossos. As redes sociais só acentuam a ilusão de que o mundo é esse mesmo, igualitário, com uma ideologia correta. Qualquer situação que extrapole os limites da nossa bolha nos causa um certo desconforto e estranhamento.

A história nos mostra que nossa cultura progride pelo apagamento das diferenças. Povos conquistadores impuseram sua visão de mundo a indígenas, negros e tantos outros povos conquistados. Por séculos, acreditamos, piamente, que tornar esses indivíduos civilizados (!) era o caminho mais digno para tirá-los das “trevas” e fazê-los entrar no mundo do progresso. Mesmo que nossas intenções sejam boas, ainda hoje tendemos a reproduzir essa posição de conquistador, que coloniza o outro pelo seu olhar eurocêntrico.

Quebrar esse ciclo vicioso, de desumanizar outras culturas, exige um esforço que nem todos estão dispostos a enfrentar. O verdadeiro encontro com o outro assusta, principalmente quando somos nós os privilegiados, pois somos obrigados a questionar a nossa própria identidade. É doloroso admitir que nossa visão de mundo é opressora, em tantos sentidos, e que também somos responsáveis por reproduzir injustiças e agressões sociais, mesmo que de forma inconsciente. Ainda assim, acredito que se implicar como parte do problema faz parte do processo de se tornar mais solidário com dores que não são nossas.

Áudio do texto Racismo Estrutural e a descolonização do outro, de Natália Flores

AuthorNatália Flores

Jornalista, sou movida pela curiosidade sobre o mundo e a vida. Tenho um pé (ou quase dois) na pesquisa e na sala de aula e vejo essas práticas como transformadoras. Inquieta, problematizadora, sempre em transformação. Acredito que o mundo está aí pra ser descoberto – e questionado.

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