AMO MEUS FILHOS, MAS ODEIO A MATERNIDADE. SERÁ MESMO?

AMO MEUS FILHOS, MAS ODEIO A MATERNIDADE. SERÁ MESMO?

As mulheres estão se sentindo liberadas (algumas) para dizer que não gostam da maternidade, que ser mãe não é algo maravilhoso para elas. Eu mesma, no texto que escrevi ano passado para o Especial Maternidades, li comentários dizendo que aquela mulher – eu, no caso- que escreveu aquele texto – ESSE, no caso – não poderia gostar de ser mãe. Fiquei com isso na cabeça e, vejam como sou lenta, demorei um ano para encontrar minhas respostas.

Eu sou apaixonada pela maternidade. Maternidade nada mais é que a relação da mãe com seu filho. Eu tenho duas maternidades, são diferentes. Relações humanas são diferentes e minhas relações com duas pessoas tão diversas entre si, o João e a Morgana, são diferentes. As gestações foram diferentes, os nascimentos foram diferentes, os processos de amamentação muito diferentes. São relações que só possuem uma mulher em comum e também o fato da outra pessoa começar sua vida do corpo daquela mulher. No mais, são relações, e relações são construídas entre indivíduos e levam toda a diversidade dos indivíduos em questão e suas formas de se relacionar. Essas relações são deliciosas e eu curto muito.

Curti gestar, curti amamentar (por um ano ou quase três), curto ensinar, acariciar, conversar, ver o desenvolvimento, aprender e ensinar com eles diariamente. Meu coração vibra com conquistas diárias e sente um orgulho imenso em ver as pessoas cheias de empatia e respeito que eles são. Tenho orgulho imenso de minhas flechas .

O que não suporto, e nisso a moça do comentário tinha toda a razão, é ser mãe seguindo roteiros dos outros. Detesto essa maternidade inventada, artificial que coloca todas as tarefas e dificuldades estruturais de criar uma vida no corpo e mente de uma pessoa. Essa maternidade que soma todo o pior do individualismo ocidental e sustenta a base da sociedade patriarcal. Esse endeusamento da mãe para garantir o trabalho reprodutivo e de cuidado nos moldes “corretos”. Essa maternidade eu não gosto, não curto e não quero mesmo. Luto contra diariamente.

Em tempo, todo o meu respeito as mães que não gostam de ser mães. Sonho com uma sociedade que a maternidade não seja compulsória e que ter filhos seja sempre apenas uma opção pessoal mesmo.

As flechas são referência a este poema:

Vossos filhos não são vossos filhos. 
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. 
Vêm através de vós, mas não de vós. 
E embora vivam convosco, não vos pertencem. 
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, 
Porque eles têm seus próprios pensamentos. 
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; 
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, 
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. 
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, 
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados. 
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. 
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força 
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe. 
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria: 
Pois assim como ele ama a flecha que voa, 
Ama também o arco que permanece estável.

Khalil Gibran

AuthorRe Zardin

Acredito na educação como aliada na desconstrução de papeis de gênero e na necessidade de políticas públicas para a garantia de direitos humanos. Nasci no início dos anos 80, adoro ouvir pessoas e suas diversidades. Na maternidade descobri o feminismo como meu foco na luta social.

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