Cortes na educação: a visão limitada dos nossos governantes

Cortes na educação: a visão limitada dos nossos governantes

Uma derrota atrás da outra. Me sinto em uma ressaca permanente, desde 2013, quando os destinos políticos do país começaram a se alinhar. Na época, os protestos de junho de 2013 nos traziam um pouco de esperança, de que a insatisfação presente nas ruas iria balançar as estruturas do poder. Balançou. Pro lado errado, porém.

A agenda de reivindicações foi cooptada por quem soube aproveitar o momento. De lá pra cá, só colecionamos perdas atrás de perdas. Em todos os setores: na segurança pública, na agenda ambiental, no campo do trabalho, e por aí vai. Formou-se um movimento anti-intelectual perigoso, que deu a sua cartada final nesta última semana, com o corte de 30% dos recursos das universidades públicas federais e até de bolsas de pesquisa.

Para quem acompanha as políticas de ciência e tecnologia brasileiras, o corte de verbas (ou contingenciamento, como eles gostam de chamar) não é totalmente novidade. Vivemos, há anos, sucessivas crises de orçamento nas universidades federais. A valorização da educação, feita de forma mais pulsante nos anos iniciais do governo Lula, não é a regra, mas sim a exceção na nossa política.

A aprovação do Teto dos Gastos, em 2016, limitando os orçamentos das áreas de ciência e educação para os próximos 20 anos, piorou ainda mais um cenário que já era precário. E explicitou o que já era sabido por muitos de nós: nossos governantes não conhecem a importância da ciência e da educação para o crescimento do Brasil.

Num país de desigualdade social profunda como o nosso, investir em ciência e educação não é desperdiçar dinheiro público, mas sim apostar em uma perspectiva de futuro para nós, brasileiros. Pesquisas geram conhecimento sobre a nossa realidade social, só para ficarmos em um de seus impactos sociais. Sem esse conhecimento, não temos condições de formular políticas públicas eficientes. Políticas de equidade de gênero, de geração de emprego e renda, de saúde, de segurança pública e de meio ambiente, entre tantas outras, não podem ficar à mercê do “achismo” de governantes mal informados (ou mal-intencionados), que tomam decisões em favorecimento de alguns setores específicos.

As universidades e outros institutos públicos de pesquisa são aliados na luta a favor de melhores condições de vida para todos nós. São nestes lugares que são feitas 95% das pesquisas brasileiras . A relação entre microcefalia e Zika vírus foi descoberta por pesquisadores da USP – só para citar um exemplo da qualidade das nossas pesquisas.

Ser professor, educador, pesquisador e estudante virou prática de resistência no atual cenário em que estamos. Num contexto em que a solução para a segurança pública cabe em um Tweet, ter pensamento crítico se transformou em prática perigosa, exercida por pessoas contra o sistema. Enquanto o governo não der a devida importância à educação na sua plataforma de governo – o que implica aumentar os investimentos para a área ao invés de optar por gerar polêmicas improdutivas –, seremos, sim, conspiradores. Do nosso lado, estão pessoas que se importam com o futuro e que querem uma gestão responsável dos recursos do nosso país. Vamos resistir, juntos, a esse desmonte da educação?

AuthorNatália Flores

Jornalista, sou movida pela curiosidade sobre o mundo e a vida. Tenho um pé (ou quase dois) na pesquisa e na sala de aula e vejo essas práticas como transformadoras. Inquieta, problematizadora, sempre em transformação. Acredito que o mundo está aí pra ser descoberto – e questionado.

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