Empatia falada e não praticada

Empatia falada e não praticada

Julho, Mês da Mulher Negra. Uma comemoração existente há 27 anos e, no entanto, nossos desafios continuam constantes e urgentes.
As opiniões que ainda se mantêm sobre nós: a de que somos as raivosas, as servis, as que gritam, as mimizentas.

Posso falar quem realmente somos?
Somos as donas do mundo. E como seríamos se não tivéssemos cuidado dos filhos, das casas, da alimentação, das roupas, da colheita, das famílias que não eram as nossas? Se não tivéssemos sido estupradas ou mortas por amar um homem negro na senzala; se não tivéssemos sido animalizadas, virado experimentos? Se não tivéssemos dado nossas receitas de bolo pra Dona Benta? Como seríamos?
Seríamos como verdadeiramente somos: as verdadeiras rainhas de um reinado!

Não pudemos constituir nossas famílias, nossos filhos eram treinados para trabalhar na roça aos 5 anos. Os filhos de estupros eram treinados pra causar discórdia entre os negros da senzala e os negros da casa grande. Não podíamos ler, votar; mas podíamos servir para que se apropriassem de todas nossas invenções e inovações até o dia de hoje!

E o que fazem do nosso legado? O que nos deixaram de fragmentos? Qual nossa verdadeira história?

Por que comparam nossas dores, desumanizam nossos sentimentos, mas compram em massa livros como Lugar de Fala, afim de dizer o quanto são “desconstruídos” e poderem afirmar que existe representatividade, sim, pois Existe uma atriz negra, um publicitário negro, uma CEO de multinacional, uma escritora negra, um casal negro e assim por diante.
Os únicos negros do rolê. E nunca esquecem de citar que “até têm amigos negros” e um antepassado de 4º grau que também é negro…
Acho que eles devem continuar a comprar muitos livros de negros. Mas comprar de todas as autoras, não somente de uma. Acho que devem contratar mais gerentes negros e empresas negras, mas não apenas pra falar de racismo.
E devem também pagar e valorizar nosso intelecto, quando nos convidam para palestrar.
Tenho certeza de que ninguém chama Lya Luft, Marcos Piangers e outros tantos palestrantes similares com a audácia de pedir que façam uma palestra “no amor”.

Por que nós temos que pedir o óbvio e ainda sermos questionados por cobrar por nosso serviços, por nosso tempo longe da família, por nosso Uber, por nosso tempo de estudos e noites mal dormidas? Porque não somos as rainhas de todos os reinados e de todos os filmes infantis?
Porque o racismo não deixou! Mas neste mês não vamos se silenciar! E se você realmente quer mudar essa realidade, tire do seu bolso privilegiado.
“Mas nunca fui privilegiado, minha mãe trabalhou na roça!”
Mas teve o direito à terra, pra depois ser o dono dessa mesma terra!
“Mas eu não tenho herança.”
E existe maior herança do que nascer sem perdas e já ter seus ganhos garantidos? Uma base familiar de luta não significa que você não tenha privilégios.

E o que você faz com seu privilégio?

“Convido minha amiga negra pra falar nos meus rolês, ué. Às vezes esqueço de indicar ela pra palestras pagas, porque tô tão empolgada….”
E voltamos a falar que a minha raiva de ser invisibilizada é um exagero.
Mas imagina se eu estivesse realmente com raiva e decidisse matar um homem branco porque ele estava com guarda-chuva preto na parada e me senti ameaçada?
Imagina se eu matasse um menino branco, enforcando-o no supermercado, pois me senti ameaçada?
Imagina se eu disparasse 80 tiros “por engano” contra o carro de um homem branco “suspeito”?
Imagina.

E ainda sou eu que tenho raiva.
Falácias brancas de que todos devem perder para aprender a ganhar servem apenas para quem já nasceu ganhando alguma coisa.
Nosso lugar é de desconforto.
Frases de marketing prontas como “fale sobre suas vulnerabilidades pois o público gosta de ouvir suas dores” funciona com a mulher negra?
Bora refletir. E se quiser realmente fazer algo pela causa, me chame. Tenho mil maneiras de ajudar nesse processo.

Caroline Conceição Moreira

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