Uma pandemia de internalizações

Uma pandemia de internalizações

Como cada cidade, ou estado, tem sua própria realidade epidêmica, sanitária e hospitalar, cada indivíduo tem sua pilha, ou montanha, de desajustes que surgiram (?) com a pandemia. Áreas de atuação, responsabilidades sociais e características pessoais também formam abismos dentro, inclusive, dos nossos lares. O inimigo é global, mas as atuações precisam ser adaptadas e pensadas para as realidades locais. Enquanto não se tem respostas únicas e fórmulas prontas para vencer, cada indivíduo busca formar suas respostas para uma série de questões que também são de cunho pessoal que despontam neste momento. Zonas de conforto, que não necessariamente eram confortáveis, foram mexidas, abaladas e exigem atenção e silêncios extraordinários no viver atual.

Os problemas de convívio, as crises conjugais, as manias irritantes do filho ou do colega de quarto. As dificuldades de comunicação com o colega de trabalho só aumentam no WhatsApp. As relações estão sendo testadas pela presença constante ou pela ausência programada, pois se um pode ser problema, o outro tanto quanto. A saudade dos pais, a ausência dos netos. Onde sobram pais, faltam avós. Sem cinema, exposição, bar, jantares ou junção; a solidão pode se impor.

Nessa realidade toda a falta se agrava. Faltas materiais, emocionais, psicológicas, físicas. A falta de amor ou de limites. Tudo o que desviamos o olhar, agora brilha e pisca em luz neon.

Por mais Poliana que eu seja, não prego que tudo isso tem um lado bom. Não há bom quando mata de vírus ou de fome. Não há positivo. Há formas de enfrentar, apenas isso. Tentar sobreviver até a tempestade passar, esperar o arco-íris, limpar o que restou, reconstruir. Talvez nada mude tanto, mas todos terão cicatrizes.

AuthorRe Zardin

Acredito na educação como aliada na desconstrução de papeis de gênero e na necessidade de políticas públicas para a garantia de direitos humanos. Nasci no início dos anos 80, adoro ouvir pessoas e suas diversidades. Na maternidade descobri o feminismo como meu foco na luta social.

2 replies to Uma pandemia de internalizações

  1. Parabéns pelo texto! Que a gente nunca perca a vontade de recomeçar e de dar a volta por cima, de se reinventar.

  2. Com certeza teremos muitas cicatrizes. E sairemos diferentes dessa pandemia. Parabéns pelo texto. Beijos no teu coração . 🤩😍

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