É de família, né?

É de família, né?

Tenho acompanhado as olimpíadas dentro das minha possibilidades, que não são muitas, mas ao assistir o ouro brasileiro na prova de vela chamou muito a atenção a quantidade de vezes que o narrador citou o pai e o tio de uma das medalhistas, eles são ex-atletas olímpicos com diversas conquistas, mas que não eram o foco do momento. Ele ainda citou a mãe dela e os pais da companheira de equipe, coisa que não me lembro de ter ouvido de outras pessoas durante a competição. A ênfase em dizer que era mais uma medalha DA FAMÍLIA e o quanto A FAMILIA era talentosa foi me soou um tanto absurda.

Não tirando de forma nenhuma o mérito do pai ou do tio, vejam bem… Muito torci por eles quando eram competidores, mas ela (e a colega de equipe) trouxeram o primeiro ouro nas olimpíadas do Rio em 2016 e agora trazem a segunda  nos jogos de Tóquio… Será mesmo justo lembrar delas como “a filha do fulano e sua colega de equipe”? 

Eu sei… ela faz parte de uma família com histórico olímpico, o pai faz parte da comissão técnica e nada disso deve ser esquecido… Mas o tom dos comentários me passou um certo desprezo pela qualidade e pelo esforço dessas mulheres, como se fosse mais fácil para elas ganharem as olimpíadas pelo sobrenome que uma delas traz.

Sobre a diferença de tratamento entre as duas atletas, pelo mesmo narrador eu não vou nem comentar, já que ele se agarrou com unhas e dentes a genética de uma dela e não as conquistas, a parceria entre as duas ou qualquer outra informação que pudesse interessar a quem assistia.

Para quem ainda acha importante citar o histórico familiar, convido a assistir aos jogos de vôlei masculino (se tiver coração forte para acompanhar a disputa). Nessa equipe temos o filho de outro grande atleta, com inúmeras conquistas em quadra e como técnico, que pouco é citado e jamais para endossar as realizações do filho, aparecendo apenas no contexto das competições ou nas suas próprias realizações como “o ex treinador da equipe agora atua em tal time” e nunca como “ponto do filho do fulano” ou coisa do tipo.

E sim, o contexto socioeconômico e familiar muitas vezes é determinante para o desenvolvimento de atletas e suas conquistas… mas o reconhecimento precisa continuar sendo de cada um e cada uma que enfrentou os treinamentos, as dificuldades, as preparações necessárias, questões pessoais e a competição para ganhar a tão sonhada medalha.


AuthorJúlia Flôres

Sou fotógrafa, publicitária, assessora de comunicação e "responsável técnica" por esse espaço! Descobri o movimento social em 2 mil e poucos... desde então acompanho muitas lutas, que de certa forma me mostraram a importância de cada batalha em defesa dos direitos humanos.

10 replies to É de família, né?

  1. Pensei exatamente o mesmo!
    Acho válido enviar esse teu texto pra eles, o pior é q nem se dão conta do machismo incrustado 😉

    • Bahhh… Não tinha pensado nisso, mas de repente era uma boa mesmo… Só não sei se vão chegar a ler…

  2. A cultura do patriarcado, do machismo, estão sempre presentes. Até quando? Esta olimpíada não assisti. Protestei. Fui contra o evento. Em plena pandemia resolvem expor os atletas e muitas outras pessoas que trabalham em função do evento. Mas acho muito importante a tua análise, Júlia. Temos que mostrar as atitudes machistas que estão nos comentários. É tbm acho importante dar visibilidade ao teu texto. Parabéns!

    • Eu também achei muito complicado a realização dos jogos, Marli.. tenho assistido um pouco antes de dormir e acho que rende muitas outras discussões, mas essa me engasgou quando eu vi e não consegui deixar pra depois…

  3. Esse fato de deixarem as duas atletas na sombra da família se repetiu no jornal da Globo News. Aquilo ali me feriu o ouvido. Todo mundo sabe quem são Ítalo e Rebeca (Eu nunca tinha ouvido falar sobre eles) e quase ninguém sabe o nome das velejadoras, eu inclusive. Parabéns pelo texto, Jú!

    • Outra coisa que valia discutir nos esportes brasileiros é a falta de estrutura pra quem decide ser atleta…. Nadador olímpico treinando em açude por falta de opção foi uma das “histórias de superação” que me assustou muito quando ouvi…

  4. A cultura do patriarcado, do machismo, estão sempre presentes. Até quando? Esta olimpíada não assisti. Protestei. Fui contra o evento. Em plena pandemia resolvem expor os atletas e muitas outras pessoas que trabalham em função do evento. Mas acho muito importante a tua análise, Júlia. Temos que mostrar as atitudes machistas que estão nos comentários. É tbm acho importante dar visibilidade ao teu texto. Parabéns!

  5. A cultura patriarcal é pesadissima, mas mais ainda a falta de reconhecimento pela luta individual contra inumeros desafios e sendo mulher, em.uma sociedade aonde machismo é estrutural faz com que não se.perceba o esforço como pessoa, ser individual e mulher, independente dos pais, que claro são a base, mas somente base. O desenvolvento é individual e como tal deve ser reconhecida a conquista.
    Lamentável.
    Mas que bom que elas chegaram lá.
    Cada conquista é um passo importante, não só da medalha, mas na.luta pelo espaço e reconhecimento enquanto indivíduo.

  6. A cultura patriarcal é pesadissima, mas mais ainda a falta de reconhecimento pela luta individual contra inumeros desafios e sendo mulher, em.uma sociedade aonde machismo é estrutural faz com que não se.perceba o esforço como pessoa, ser individual e mulher, independente dos pais, que claro são a base, mas somente base. O desenvolvento é individual e como tal deve ser reconhecida a conquista.
    Lamentável.
    Mas que bom que elas chegaram lá.
    Cada conquista é um passo importante, não só da medalha, mas na.luta pelo espaço e reconhecimento enquanto indivíduo.

  7. Também fiquei chateada com os comentários. Pensei em como as meninas se sentirão em ver a sua conquista vinculada aos grandes atletas que não podemos negar, mas ali eram elas as protagonistas. Muito triste. Parece desvalorizar a conquista das meninas.

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