Olhos cansados

Olhos cansados

No início da pandemia, eu não observei. Não olhava as pessoas muito detalhadamente. As máscaras me distraíam. Depois me acostumei. Conversava com várias pessoas pensando que eram uma só. A máscara assumia o protagonismo.
Depois de mais algum tempo, comecei a perceber que tinha algo esquisito. Conversava com várias pessoas e ficava o mesmo sentimento. Era mais uma sensação do que um sentimento. Uma coisa vaga e sutil, que ia ficando mais forte à medida que o tempo passava.
Um dia me dei conta. As pessoas estavam me olhando de longe. De muito tempo atrás. Havia uma nevoa constante entre nós. Era mais do que tristeza, era mais do que medo. Era cansaço.
Primeiro veio a tristeza. Tantas mortes, tanta gente doente, impossível dimensionar. Depois, veio o medo – e se eu pegar? Como vai ser? Dói? E a minha família, como vai ficar? Finalmente veio o cansaço. Números demais para entender. Informações novas a cada dia, contraditórias, às vezes. Gente adoecendo, gente morrendo. Conhecidos, amigos, colegas. Um grande cansaço tomou conta das pessoas, embaçou seus olhos, tirou seu brilho. Gente nova, gente velha, todos com o mesmo olhar de zumbi. Só o que se percebia era a falta de brilho, a falta de reação. Cansaço.
Cansaço que tomou conta de todos nós. Cansaço que permanece até hoje.
Cansaço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *