Amamentação: o que eu tenho a ver com isso?

Se o leite materno é o melhor alimento para o recém-nascido; se o aleitamento exclusivo é recomendado até os seis meses; se a amamentação humana deveria ser feita até, no mínimo, os dois anos de idade; se o leite materno é “de graça” e garante anticorpos; se, se, se…. Por que menos da metade dos pirralhos brasileiros são alimentados com amamentação exclusiva até os seis meses? Por que pouco mais da metade é amamentada até um ano de vida?

Os benefícios da amamentação são difundidos e existe a preocupação em formar, educar e incentivar a amamentação. Mas os índices seguem medianos — atingem próximo da metade da população. Considerando que é importante, é de graça e é natural, são inclusive baixos. O que está faltando para que eles melhorem?

Somos mamíferos e aprendemos na escola que a amamentação é natural e instintiva; aprendemos também que o principal intuito de todas as espécies é a autopreservação — reproduzir, manter a espécie viva — e nisso, a amamentação tem um papel importante. Entretanto, não pensamos ou discutimos o quanto o natural e o instintivo estão afastados de nós. Por exemplo, o casamento monogâmico não é natural; porém, a infidelidade é considerada crime ainda em algumas sociedades e falta de caráter em outras.

Ser natural da espécie está longe de ser fácil e indiscutível quando se fala de humanidade. Por que, então, quando se trata de maternidade e amamentação, esquecemos todos as camadas civilizatórias e esperamos que o natural e a sobrevivência da espécie sejam uma garantia de resultados?

Conhecer e discutir o que leva a metade das crias brasileiras a não receber o líquido dourado é, a meu ver, necessário. Lutar pelas pautas que podem auxiliar o aumento nos índices de amamentação é obrigação de toda a população. Não adianta apenas dizer que “é melhor” e deixar que as pessoas se virem com essa informação.




“Como é que querem incentivar o aleitamento materno exclusivo até os seis meses, se as mães têm que voltar a trabalhar aos quatro? Eu consegui seguir até os seis meses porque morava em uma cidade muito pequena e o trabalho era a cinco minutos de casa, mas isso numa cidade grande não tem condições. Nem todas as mães conseguem ordenhar. Eu não conseguia (…). É complicada essa questão do aleitamento exclusivo. Isso tem que ser debatido. ”  Fernanda Flores

Dos depoimentos que recebi, todas as mulheres que conseguiram amamentar por mais tempo trazem a palavra apoio. Apoio da família, apoio do marido, apoio dos profissionais de saúde, rede de apoio. Coincidência? Se é uma escolha de uma pessoa e uma relação que, teoricamente, só envolve duas, se é tão fácil e natural, por que “apoio” aparece em todas as falas de quem teve êxito em seguir as recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde)?

Paralelamente, quem não amamentou ou amamentou por pouco tempo traz o verbo “conseguir”. “Eu só consegui”… “eu não consegui” … Por que, se é uma escolha tão fácil e óbvia, o que aparece nas falas é uma “tentativa sem sucesso”, e não uma escolha racional?

E não, não estou negando que é uma escolha válida. Todavia, acho importante pensarmos em quantas mães, dessas quase 50%, houve uma escolha real por não amamentar. Quantas dessas mães não tiveram apoio — familiar, conjugal, social, público — efetivo para amamentar e, por isso, não conseguiram? Não falando de apenas informação (importantíssima) e de apoio à ideia. Aqui falamos de redes, de conscientização social e, obviamente, de políticas públicas.

Apenas quem já passou pelo puerpério tem noção da confusão que ele pode ser. São diversas escolhas para fazer, enquanto nosso corpo passa por uma enxurrada de modificações, temperada por um número infinito de possibilidades de pressões, em um período de possível privação de sono.

Os hormônios e a amamentação são naturais; entretanto, a capa de revista com a atriz que exibe o seu tanquinho, 45 dias após parir, não. Escolher entre dormir ou lavar a louça também não. A louça não é natural, mas ela está ali; o cesto de roupa suja também não é natural, mas está ali, a vida moderna e suas obrigações e cobranças estão ali e sim, a natureza te inunda; porém, não vem só.

Entender esse momento, respeitá-lo, apoiar quem está nele é um passo. Conhecer as reivindicações, conhecer estudos e exigir políticas públicas é responsabilidade de toda a sociedade, e não apenas de alguns profissionais de saúde, militantes e de quem pariu Mateus.  

Se “É preciso uma aldeia para se educar uma criança”, é preciso uma sociedade para amamentá-la.

Quando decidi escrever sobre amamentação, pedi histórias de amigas, leitoras, seguidoras do Mosaicos nas redes. Tenho vivência com a amamentação com meus dois filhos.

Conheço a sensação de ir para baixo do chuveiro chorando de dor com o peito empedrado enquanto a cabeça está em como acolher o primogênito tapado de ciúme do RN. Posso falar da relação maravilhosa, a melhor do mundo, dos momentos de troca, carinho, olho no olho com as minhas crias.

Posso falar, mas entendo meu lugar de fala. Entendo que por mais dores e amores que a amamentação tenha me trazido, isso foi dentro de uma estrutura, de uma criação que defendia amamentação, de uma mãe da ciência, de uma genética e de alimentação que fez que meus peitos jorrassem leite. De escolhas afetivas que possibilitaram algumas divisões de tarefas, alguns “foda-se” para as cobranças conjugais, muitos “fodam-se” nas cobranças sociais, dentro de um mundo que a licença-maternidade remunerada de seis meses (na segunda vez) foi uma realidade.

Posso falar da experiência com amamentação de quem tem conhecimento e uma rede. De quem tem um plano de saúde que possibilitou mudar o pediatra quando houve a primeira pressão por fórmula. E, dentro desta estrutura, desse lugar de fala, digo que escolher por amamentar e, principalmente seguir amamentando, foi difícil. Não foi a escolha mais óbvia e em diversos momentos foi uma prova de resistência. Por que a sociedade te diz “amamente”, porém, te faz repensar a amamentação diariamente.

Entre os ótimos comentários e opiniões que recebi, tiveram dois relatos que eu escolhi dividir.  Coincidentemente são de mulheres que amamentaram suas crias com APLV (alergia à proteína do leite de vaca), cada dia mais frequente. Histórias inspiradoras, de mulheres que tiveram vontade, informação e apoio para amamentar. Mulheres que me ensinam um pouco mais sobre esse mundo tão diverso da amamentação.



Eu escolhi amamentar o Nícolas ainda durante a gestação. Li e estudei muito sobre o assunto e tinha convicção de que os benefícios seriam enormes para nós dois. E assim foi, durante os 2 anos e 10 meses em que ele mamou. Os seis primeiros meses de vida dele foram de amamentação exclusiva. A introdução alimentar ocorreu somente após esse período. O início foi doloroso e difícil. Nícolas nasceu um pouco antes da hora, com 36 semanas, e ficamos uns dias a mais do que o esperado no hospital porque ele não pegava o peito. Nos primeiros dias, Nícolas dormia muito. Eu botava no peito, ele sugava um pouco e dormia. A pediatra brincava que ele na verdade não tinha entendido ainda que estava fora da barriga. A equipe do hospital foi incansável. A gente tirava toda a roupa dele, para não dormir na hora de mamar. Mas não adiantava muito.  Até que uma técnica de enfermagem propôs ordenhar meu leite e colocar num copinho. Demos para ele, que pegou gosto pela coisa. Ali, ele começou a mamar bem.
Tenho convicção de que apesar das dificuldades iniciais, a nossa história de amamentação foi um sucesso porque tivemos muita orientação e apoio, seja da pediatra, da equipe do hospital, seja da família. Outro desafio que tivemos foi a APLV (alergia à proteína do leite). Eu optei por continuar a amamentação e tive que fazer uma dieta super restritiva, sem leite nem derivados.
E deu tudo certo. Com um ano e meio, ele estava curado da APLV. A amamentação seguiu por mais alguns meses, até que eu desistisse encerrar aquela etapa. Sempre foi muito prazeroso para nós dois, uma troca intensa de amor e de carinho. Sempre foi muito além da nutrição. Até hoje, com seis anos, Nícolas busca o aconchego e a segurança no meu peito. Eu sofri um pouco de preconceito e questionamentos pela chamada “amamentação prolongada”, mas isso não me abalou, sinceramente. Para mim, era apenas o ponto de vista diferente do meu. Segui até o momento em que foi confortável para nós dois.
Quando já não era mais tão prazeroso para mim, busquei todos os recursos para tornar a ruptura menos difícil para nós dois: livrinhos, historinhas, músicas, e muito, muito diálogo. Tentei o desmame gentil, não funcionou. Então um dia eu disse para ele: filho, esta noite tu vais mamar pela última vez. Amanhã, não tem mais mamá. Ele concordou. Naquele momento, só mamava para dormir. Na noite seguinte, ele pediu o peito para dormir e eu lembrei do que tinha dito na noite anterior. Ele não chorou, mas gritou muito de raiva de mim e adormeceu agarrado no pai. Foi assim nos quatro dias seguintes, até que ele aceitou que aquela etapa da nossa vida tinha acabado. Se foi o certo, eu não sei, mas tenho convicção de que foi do jeito que tinha que ser. Não tenho arrependimento algum! Fomos muito felizes durante o período em que ele mamou! Marcela Panke, jornalista, mãe do Nicolas.



Foi muito difícil no início. A Maria tinha alergia a proteína do leite de vaca e eu amamentava exclusivamente, então eu tive que mudar totalmente a minha dieta.  Eu não podia comer nada nem com traços de leite. Eu sequei, porque eu morava em Frederico*. Lá não tinha alimentação pronta assim, até o pão eu tive que fazer em casa. Isso trabalhando o dia inteiro fora. Era bem difícil, mas a gente foi vencendo, né? Tinha que deixar tudo separado, utensílios era um inferno. 
Depois que ela começou a introdução alimentar, também tudo tinha que fazer separadinho… prato, garfinho… tudo.  É bem complicado assim, ainda bem que a gente teve apoio da família, acho que é o apoio da família é muito importante. Vencemos a alergia a proteína do leite da vaca depois depois de um ano. Eu fui dessensibilizando ela através do meu leite. Comecei comendo alimentos com traços de leite, depois com leite até dessensibilizar ela. Até ela poder comer tudo.
Recebo críticas porque eu ainda amamento, ela vai fazer dois anos e três meses e eu sigo amamentando e muita gente me critica. “Essa criança vai mamar até os quinze? ” “Essa guria só fica pendurada nas tetas” e assim vai. Eu amo amamentar, eu não importo nenhum pouco em me doar nesse momento. Acho que um dos maiores medos que eu tinha quando eu fiquei sabendo que eu ia ter que fazer parto “cesária” era não ter leite. A gente sabe que um dos possíveis efeitos colaterais da cesariana é não descer o leite né? Eu morria de medo disso, mas graças a Deus eu fui abençoada e, felizmente, também tive essa rede de apoio tão importante. Se não fosse isso, acho que eu não conseguiria ter amamentado ela até vencer a alergia. Mas é isso ela segue firme e forte e cheia dos anticorpos da mamãe depois duas doses de vacina. ** Fernanda Flores, farmacêutica, mãe de Maria Eduarda.
*Frederico Westphalen, cidade do interior do Rio Grande do Sul com população em torno de 32 mil habitantes.
** Esse depoimento foi enviado em áudio e sofreu pequenas edições na transcrição.

AuthorRe Zardin

Acredito na educação como aliada na desconstrução de papeis de gênero e na necessidade de políticas públicas para a garantia de direitos humanos. Nasci no início dos anos 80, adoro ouvir pessoas e suas diversidades. Na maternidade descobri o feminismo como meu foco na luta social.

2 replies to Amamentação: o que eu tenho a ver com isso?

  1. Concordo, acho importante a amamentação para a saúde das crianças. Meu neto está com 2 anos e 4 meses e ainda mama, é importante pra imunidade dele, ainda mais nessa época de pandemia. Minha primeira filha não consegui amamentar, nasceu de 29 semanas, ficou um mês no hospital pra ganhar peso, naquele tempo a mãe não ia amamentar no hospital como hoje em dia, quando veio pra casa eu já não tinha mais leite. Minha segunda filha também nasceu prematura, mas perdi 5hs depois, me deram uma injeção pra secar o leite. Meu terceiro filho nasceu de 8 meses e meio, fiz cesárea, o leite só desceu depois de uma semana, não sei por que, se foi por causa da injeção pra secar da segunda filha, o médico não soube me explicar, tentei muito que ele pegasse, mas já estava acostumado na mamadeira. Talvez se tentasse mais, mas na ansiedade de ver a criança gritando de fome, eu dava a mamadeira, e foi diminuindo. Mas gostaria de ter amamentado, pela saúde do bebê, era de graça, mais prático e não teria gastado com tantas latas de leite. Mas enfim deu tudo certo.

    • É, Eva querida, nos adaptamos e sobrevivemos às circunstâncias que a vida nos apresenta. Neste mundo da amamentação sabemos bem que quase nunca a idealização corresponde à realidade e lidamos conforme podemos e conseguimos no momento. Que coisa boa que como avó sabes da importância e podes apoiar outra mulher, as avós têm um papel importantíssimo e um reforço positivo que pode ser extremamente acolhedor. Abraço forte.

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