Mãe de planta

Mãe de planta

Aconteceu. Aos quarenta segundos do segundo tempo desta eterna pandemia, virei o que mais temia: mãe de planta.

Por enquanto, são três singelas e lindas mudas decorando a nossa sacada, mas sei que é só uma questão de tempo para a selva aumentar. Conheço alguns casos. É viciante. Confesso que ainda não decorei o nome delas e escolhi, mesmo, pela beleza. Dei uma pesquisada básica na internet para descobrir que hábitos elas têm, quanta água e sol precisam, essas coisas que todo amante de planta sabe decor e salteado.

Fiquei adiando a decisão de comprar plantas ao longo dos anos por pura preguiça. Como levei uma vida nômade nestes últimos anos pré-pandemia, pulando de uma cidade a outra sem fixar residência por mais de um ano no mesmo lugar, era difícil fazer planos a longo prazo, tipo, ter plantas ou adotar um cachorro. Além das samambaias e dos bonsais do meu pai, ou das roseiras da minha mãe, nunca convivi ou me interessei muito por elas.

Então veio a pandemia e, com ela, a vida limitada aos quatro cômodos do apartamento. Sem rua, sem parques, sem a pequena natureza da vida metropolitana. Também sem o pátio e o gramado da casa dos meus pais.

No começo, eu não queria quebrar a quarentena (porque sou dessas) só para ir comprar plantas. Tinham coisas mais essenciais em jogo, não é? E eu que não ia escolher plantas virtualmente no Mercado Livre ou na Amazon. Até pensei nisso, mas logo desisti porque parecia algo estranho de se fazer. É preciso sentir o cheiro, a textura e os tons das folhas. Com o passar dos meses, a falta de vida verde no nosso apartamento foi ficando patológica, e então, chegou a hora.

Estava sentindo tanta falta de natureza que meu namorado teve que me sugerir não levar mais algumas mudas de samambaias, suculentas, orquídeas e tantas outras. Sim. Esqueci de mencionar que essas são as primeiras plantas que tenho na vida (!), o que gera uma apreensão a mais de como mantê-las vivas.

Como uma mãe de primeira viagem, estou aprendendo aos poucos quanta água dar, se elas gostam de bastante ou pouco sol, e se se adaptaram à luz da sala de estar ou da sacada. Faz uma semana e elas continuam vivas. Não deve ser tão difícil assim, né?

AuthorNatália Flores

Jornalista, sou movida pela curiosidade sobre o mundo e a vida. Tenho um pé (ou quase dois) na pesquisa e na sala de aula e vejo essas práticas como transformadoras. Inquieta, problematizadora, sempre em transformação. Acredito que o mundo está aí pra ser descoberto – e questionado.

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