a culpa

a culpa

Eu costumo me apegar às memórias afetivas. Eu lembro com carinho da música alta, sei de cor todos os sucessos noventistas do sertanejo, samba e pagode daquela década mágica. Se eu fechar os olhos eu ouço o bater das panelas, vejo o pano de prato no teu ombro e tu falando rápido e eu meio sem entender nadinha do que tu falava, porque tu tinha aquela leve gagueira. Éramos uma clássica família suburbana, sabe. Tinha primos correndo de um lado para outro, tinha choros, risadas e afeto. 

O muro baixinho que circunda a casa continua lá. Os móveis praticamente são os mesmos, os quadros também. Mas tem muito mais silêncios, menos crianças, mais adultos e música raramente é tocada. Mas estamos seguindo, menos barulhentos, mas estamos levando as coisas do jeito que dá. Cada qual com seus anseios e escolhas. E falando escolhas quando citamos teu nome, é difícil entender. Há quem te chame de egoísta, eu até entendo de certa forma quem parte desse pressuposto. Mas o que mais vem à tona é a culpa mesmo, essa vem como dizem por aí: com os dois pés! Mas uma amiga que passou pelo mesmo, me mostrou que não há culpa. E sim, efeitos colaterais e quando perdemos alguém para o sucidio todos nós somos vítimas das circunstâncias.

Eu jamais vou entender o porquê, embora eu saiba as razões. Todos nós sabíamos que o baque pelo qual tu passou te deixou ainda mais triste. Assolou teu coração. Nós ficamos tristes também, não foi fácil para ninguém. Mas pelo jeito foi mais difícil para ti. Estávamos imersos no luto anterior e  quando nos demos por conta a gente estava de novo em luto. Dessa vez por ti. Justo tu. O mais alegre, o mais risonho, o avó que fazia a melhor sopa, que tinha a risada mais gostosa. 

E se tivéssemos feito diferente? Se prestássemos melhor a atenção! E se…. E o tempo não volta. E nem vai. Quando a saudade bate eu coloco as músicas que embalaram a minha infância, às vezes até rola um samba: cachaça com coca-cola. 


Estejam atentos e fortes por aqueles que amam. Setembro amarelo é todos os meses, a depressão não tem cor mas muita dor. Procure ajuda profissional. Sua vida vale muito. Para aqueles que perderam alguém para a depressão, meus mais sinceros e honestos sentimentos.

Não se culpe. É impossível controlar todas as ações de alguém. O tempo não volta. As boas lembranças e memórias afetivas são excelentes combustíveis para seguirmos por aqui. 


setembro amarelo
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