Setembro (verde e) Amarelo

Setembro (verde e) Amarelo

O setembro é amarelo, mas também verde: as cores aparecem, tradicionalmente, nas festividades da independência no dia 7. Cores que foram subvertidas por figuras que, ao defender o presidente, falavam sobre a volta dos militares ao poder, exaltavam as mesmas velhas figuras que a extrema direita sempre exaltou e pediam pela volta de um tempo que não trouxe benefício algum ao país. Mais de trinta anos se passaram desde o fim da ditadura civil-militar brasileira e ainda sofremos com suas consequências.

O amarelo carrega também o significado de uma campanha que busca conscientizar a sociedade sobre o suicídio como um problema de saúde pública. De acordo com dados oficiais, cerca de 32 brasileiros tiram a própria vida por dia, estando o Rio Grande do Sul no topo dos estados com maior taxa de suicídios. A campanha se dispõe, em parte, a romper com o silêncio que o assunto carrega e disseminar a ideia de que, como diz o próprio slogan, “falar é a melhor solução”.

Mas o que o verde e amarelo daqueles que exaltam torturadores tem a ver com o amarelo campanha de prevenção ao suicídio? Mais do que a gente costuma lembrar.

Que a ditadura civil-militar brasileira perseguiu, prendeu, torturou e assassinou alguns de seus opositores é um assunto já bastante abordado, principalmente no campo da esquerda. No entanto, pouco falamos sobre os efeitos que isso causou naqueles que foram atingidos. A tortura sempre deixa marcas, e nem todas elas são visíveis a olho nu.

Muitas vidas foram roubadas nos porões da ditadura. Nem sempre pelas mãos diretas dos algozes, mas todas com a forte influência do regime. Algumas pessoas que sobreviveram às sevícias não conseguiram viver com aquilo que carregavam na memória. Pessoas que já estavam com a vida novamente encaminhada, mesmo anos depois de saírem do cárcere, acabaram por tirar suas próprias vidas, deixando para trás amigos, familiares, amores e seus sonhos de um mundo melhor e um país verdadeiramente livre.

Houve quem tentou tirar a própria vida, ainda preso, como forma de denunciar os abusos das condições nas quais estavam vivendo. Alguns acabaram conseguindo. Outros tiraram suas vidas na iminência da prisão, preferindo a morte do que serem detidos pelas forças da repressão. Carlos Marighella, por exemplo, costumava andar com cápsulas de cianureto para evitar ser capturado com vida.

Além dos suicídios nos mais diferentes contextos, a ditadura ainda usou de laudos falsos para “suicidar” alguns militantes que assassinavam durante prisões ilegais, como o famoso caso de Vladimir Herzog. Ainda hoje, muitas mortes seguem com informações desencontradas, não revelando ao certo o seu real contexto. Assim, os números de suicídios do período da ditadura civil-militar se tornam imprecisos.

Embora não seja fácil, falar sobre suicídio é uma tarefa essencial para todos nós. Não podemos deixar o tema apenas para o mês de setembro, nem somente sobre o atual contexto. Segundo diferentes teóricos, crises políticas, sociais e econômicas acabam por desencadear um agravamento no número de pessoas que tiram suas próprias vidas. Ainda que com diferentes percepções para diferentes sociedades, tempos históricos e religiões, o suicídio esteve presente durante toda a história da humanidade. Nem como um ato de bravura, tampouco de covardia, precisamos entendê-lo tal como é: multifacetado, com diferentes causas e gatilhos.

Que esse mês da prevenção ao suicídio, em meio a um cenário de crise política, social, econômica e sanitária, de perseguição a opositores políticos e de ameaças golpistas, nos lembre daquilo que é mais importante: cuidemos de nós, cuidemos uns dos outros e cuidemos da nossa tão duramente conquistada democracia. Por todos aqueles que já se foram. Por todos aqueles que lutam diariamente para ficar.

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