Um veto à dignidade

Um veto à dignidade

Ou “Sobre bolhas, fumaça e sangue”

Sábado, 9 de outubro de 2021. Vontade nenhuma de escrever o óbvio. Confesso que a minha paciência para “desenhar” desigualdades e a necessidade de usarmos, no mínimo, uma grande angular vez que outra para enxergarmos os contornos de nossas belas bolhas coloridas de sabão está cada vez menor. Entretanto, o texto desse fim de semana é meu e, por mais que eu preferisse focar no calendário e falar das crias aproveitando a deixa (como se precisasse) do dia das crianças, o inominável se superou mais uma vez e acaba sendo inviável não falar de absorventes.

O veto é mais uma cortina de fumaça? Tudo indica que sim. Mais uma vez ele taca fogo numa bandeira para esquecermos laranjas, rachadinhas e offshore e sim, mais uma vez caio nessa. Em minha defesa, não falaria do Guedes, tem gente muito mais qualificada falando disso. Então, desculpem filhotes, mas falarei de fumaça, bolhas e de tudo isso que está aí.

Obviamente não falo ao genô da república, ele sabe bem o que está fazendo. Porém, quando o projeto 4968/19 passou pela Câmara e pelo Senado vi mulheres, algumas até bem intencionadas, relativizando, criticando o fato do projeto não prever a distribuição de coletores menstruais. Em momentos como este o cansaço bate tão forte, mas vamos lá.

Querida mulher como eu, por mais que você e eu saibamos que o copinho é vida em forma de silicone, facilita o dia a dia, reduz o lixo e permite que estejamos conhecendo e acompanhando nosso ciclo e nosso corpo, ele não é um bom aliado contra a pobreza menstrual. O uso adequado de coletores menstruais prevê privilégios, como água tratada, sabonete, luz ou gás para esterilização. Itens tão básicos que não deveriam ser privilégios, mas são — e, infelizmente, cada vez maiores. Quando o próprio absorvente descartável “marca diabo” e a possibilidade de ir à escola todos os dias são privilégios, precisamos olhar em torno e entender que mesmo menstruando, nem sempre é sobre nós.

Quanto ao veto, é ele mais uma vez o governo dizendo que mulheres não merecem o mínimo de dignidade. Meninas quase pretas, e quase brancas, pobres como pretas* que se virem com jornais e, melhor ainda, que abandonem a escola, que nem é lugar para elas. Não é sobre escolher a vacina, não é sobre de onde virá o orçamento. É mais uma vez sobre misoginia e racismo em sua pior versão. Aí sim, é sobre todas nós.

AuthorRe Zardin

Acredito na educação como aliada na desconstrução de papeis de gênero e na necessidade de políticas públicas para a garantia de direitos humanos. Nasci no início dos anos 80, adoro ouvir pessoas e suas diversidades. Na maternidade descobri o feminismo como meu foco na luta social.

4 replies to Um veto à dignidade

  1. Excelente reflexão. Também não concordo em relação aos coletores…Bem como vc cita no texto.

  2. Ótimo texto, valeu Re

  3. Excelente texto. as múltiplas discriminações que historicamente desumanizam as mulheres pobres, negras e jovens hoje estão potencializada por um governo declaradamente racista e misógino lutar pela dignidade menstrual das mulheres e meninas é fundamental.

    • Muito triste vivermos esse momento Reginete. Nossas lutas são mais necessárias que nunca. Seguimos, minha amiga.

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