Marília Mendonça: uma Rainha

Marília Mendonça: uma Rainha

Spoiler: não morar no reino dela não muda isso.

Enquanto pesquisava músicas para o texto dos absorventes, caí no vídeo da Paula Mattos com a Marília Mendonça e achei interessante. Dei mais uma pesquisada e outra interpretação da Marília Mendonça com Maiara e Maraisa, Bebaça (quem nunca?), me surpreendeu. Não, não sou a Mestre das Magas da memória, mas o histórico do Chrome salva. Apesar de saber quem era e conhecer a alcunha de Rainha da Sofrência, meu contato com suas músicas, até então, havia sido muito breve, em momentos festivos pré-covid-19. Vamos combinar que, se já nos blindávamos culturalmente em nossas bolhas, a era covid reduziu ainda mais a interação com estilos e gostos previamente aprovados e carimbados se tornaram os únicos presentes em nosso cotidiano classe média streaming. Tudo isso para dizer que, naquele momento, conheci um pouco dessa artista. Naveguei, busquei outros vídeos porque me chamou atenção.

Uma mulher jovem, fora do padrão estético, e com uma segurança de palco absurda. Lindaça. Ainda assim, o que mais me chamou a atenção foram as letras. A mulher como sujeito, não como objeto. A mulher que vai para o boteco encher a cara com a amiga. A mulher que escolheu estar com quem está com outra pessoa. A mulher que diz para a amiga que tudo bem, que o boy lixo não vai acabar com a amizade delas. A mulher sob o olhar da própria mulher, cantada pela mulher, no centro da temática e do palco. Além de muita concretude nas letras — aspecto que, geralmente, costuma me chamar atenção. Gostei de conhecer, sabe? Me surpreendi muito e guardei na “caixinha” olhar com calma em outro momento.

Sertanejo não é a minha escolha musical, mas acho importante mulheres poderosas ocuparem seus espaços em um universo predominantemente masculino e, ainda por cima, trazendo uma mudança clara no identitário feminino. Roberta Miranda, a quem sempre admirei, traz constantemente o sofrimento da mulher no quarto escuro. Questões geracionais.

Ainn, mas ela só falava de sofrer por homem…tem gente dizendo por aí.  Meu bem, é música sertaneja, lembra? O cara que dorme na praça pensando nela, o fio de cabelo, o que não sabe dizer adeus. Se o sofrer amoroso é parte significativa da música, de forma geral, no sertanejo ele é central. Desprezar isso é quase como criticar uma cantora gospel por falar em Deus. É legítimo o seu direito em não gostar, aceitar que não faz parte do seu estilo; porém, isso não diminui em nada a artista. Ela ocupou seu espaço cedo e com muita força. Não reconhecer a importância dela e de sua postura no cenário musical é ignorar que existe vida além da bolha.

Homens cis listando os motivos pelos quais não a consideram uma representante legítima do feminismo… No crédito ou no débito?

Ainn, mas eu nunca havia ouvido falar nela. E daí? Francamente? Essa frase só tem alguma importância se anteceder uma autocrítica, sobre o quanto estamos em uma alienação voluntária. Talvez uma análise do sinal dado por isso, uma vez que a militância “intelectual” não consegue dialogar com a população. Do quanto não estamos observando adequadamente os movimentos do país. Cultura de massa influencia desejos, necessidades, posicionamentos e voto – independentemente da tua opinião sobre ela. Vamos combinar que a frase em si só mostra ignorância, pois Marília Mendonça era chamada de rainha Brasil afora e nunca precisou de tua validação para isso; assim como o sertanejo é ouvido por milhares de brasileiros, e tu chamares de “sertanojo” não diminui um real da importância dessa indústria no país.

Não havia cogitado escrever sobre Marília Mendonça. Não sou grande conhecedora de seu trabalho. Além disso, tenho tido uma certa dificuldade em encarar a comoção pela morte de artistas e figuras públicas no atual cenário brasileiro. Entretanto, obituários absurdos, críticas e desdém à artista me causaram muito desconforto e uma imensa vontade de gritar: Respeitem! Respeitem a dor do outro. Respeitem o tamanho e importância da outra no cenário nacional. Não tem problema não ser relevante para ti, vida que segue. Mais uma vez sou obrigada a repetir para as minhas bolhas: gente, nem tudo é sobre nós e tá tudo certo. Tá feio, tá vergonhoso. Deixem homenagear, chorar, sofrer. E, como fãs da Rainha da Sofrência, vão gritar, vão viver a dor com intensidade e ela merece, merece muito.

Marília, segue brilhando, Estrelinha!

AuthorRe Zardin

Acredito na educação como aliada na desconstrução de papeis de gênero e na necessidade de políticas públicas para a garantia de direitos humanos. Nasci no início dos anos 80, adoro ouvir pessoas e suas diversidades. Na maternidade descobri o feminismo como meu foco na luta social.

6 replies to Marília Mendonça: uma Rainha

  1. Baita texto! Parabéns, Rê!

    • Fico tão orgulhosa quando tu gostas dos meus textos.

  2. Obrigada pelo texto! Bem isso, Marília Mendonça cantava a vida real das mulheres. Uma jovem que entendia que nem tudo são flores, mas também não há só espinhos. Se isso é sofrência, eu fui e sou todas essas mulheres que Marília descrevia em suas canções.

    • Uma voz poderosa, né Lucia? Pena ser calada tão cedo.

  3. Sabe Renata, desde que a Marília morreu, estava sentindo o mesmo que descreves tão bem. Também para mim o sertanejo não faz parte das escolhas musicais, mas é inegável a importância dessa mulher, que falou às mentes e corações de tantas outras. Escreves muito bem. Um abraço!

  4. Parabéns pela reflexao…gostei muito e penso exatamente o que tu conseguiu escrever tao bem!!!que bom conhecer esta teu lado!!! e que bom que estamos próximas no cotidiano!!!!😘😘😘😘😘

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *