O novembro é negro. Mas e o resto do ano?

O novembro é negro. Mas e o resto do ano?

Foi em novembro dos anos 70 em Porto Alegre, capital do segundo estado mais branco do Brasil, que surgiu o 20 de novembro. Por iniciativa do Clube Social Negro “Marcilio Dias”, onde o Grupo Palmares se reunia para debater questões raciais. O poeta Oliveira Silveira junto dos outros fundadores do grupo Ilmo da Silva, Vilmar Nunes e Antônio Cortês não concordavam com a legitimidade do 13 de maio, data da concessão da liberdade ao povo preto e, propuseram então, o Dia 20 de Novembro como data da Consciência Negra. Data essa que marca a morte do líder quilombola Zumbi dos Palmares.

Portanto a data foi construída para o resgate da humanidade e identidade do povo preto. Gente essa que sofre com o apagamento histórico, com as violências das estruturas racistas construídas em mais de 400 anos de escravidão. Ao longo do mês, movimentos negros e ativistas convocam a sociedade para refletir e falar sobre as pautas raciais no país. Mas as questões que ficam são: onde está a branquitude antirracista fora do mês de novembro? Por que só chamar intelectuais e artistas negros para falar neste mês?

O mais preocupante nesses convites é que há quase sempre margem para “como pessoas pretas superam o racismo”, mas o racismo não é superado, ele é combatido. E explorar a dor do povo preto é reforçar e retirar a humanidade da gente. Não somos feitos só de mazelas sociais, embora elas nos persigam, nos excluam e nos coloquem à margem da sociedade. Por isso, usar a data para reforçar essas violências é estigmatizar ainda mais toda uma comunidade rica em história, cultura e individualidades. 

A pauta antirracista deve ser levantada em todos os meses e dias do ano. Novembro é o mês em que jogamos mais luz sobre a causa, mas ela não se limita somente ao dia 20. Há muito o que se construir e debater ao longo do ano, por isso, repito: o que a sociedade faz com as pautas raciais nos outros 11 meses do ano? Cara branquitude: não use uma data tão importante para aliviar a consciência social de vocês, não nos usem como holofote para se dizerem não racistas, parem de perpetrar violências nos condicionando somente à dor e ao sofrimento. Nos deem espaço, porque voz sempre tivemos, vocês que não querem nos escutar. 

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