O combate à violência contra as mulheres precisa vir do coletivo

O combate à violência contra as mulheres precisa vir do coletivo

Se tem um assunto que todas as mulheres têm em comum é o medo de serem violentadas. De serem seguidas por um estranho no caminho para a escola, de sofrerem assédio no metrô, enquanto vão ao trabalho ou no uber quando voltam da balada. O medo do estupro é passado de mãe para filha, de forma implícita ou em relatos sombrios, quando a agressão se concretiza. Ele não faz distinção de idade e, nem mesmo, de classe social. 

Desde pequenas, somos orientadas a não dar bobeira. A cartilha é grande e acaba moldando boa parte dos nossos comportamentos sociais ao longo da vida. Quando for sair, é bom evitar caminhos vazios e horários suspeitos, preferir andar em grupo do que sozinha, de preferência com amigos homens que possam te proteger. Escolher roupas que não sejam provocantes aos olhos dos machos também está no rol do “você deve fazer” já que eles têm dificuldade de controlar seus instintos e a culpa de seu descontrole será, invariavelmente, tua. Somos cobradas por prudência e mantemos nossos olhos vigilantes, sempre à espreita do próximo ataque.

Vivemos num país violento, que ocupa a quinta posição de país que mais mata mulheres no mundo. Cada notícia de mulher agredida e morta pelo ex-companheiro é um soco no estômago de todas nós, seja pela violência do ato ou porque sabemos que a próxima vítima pode ser nossa amiga, vizinha ou, até mesmo, nós. 

Além disso, recém estamos começando a entender que podemos ser violentadas das mais diferentes formas possíveis. Às vezes tem uso da força, às vezes não chega a esse extremo. Palavrões e assédio psicológico em relacionamentos íntimos abusivos ou em relações de trabalho, perpetuados por anos, já são suficientes para causar estrago à autoestima de uma mulher. 

Junto a isso, descobrimos – e nos surpreendemos! – como esses ataques são generalizados. Uma em cada quatro brasileiras acima de 16 anos diz ter sofrido algum tipo de violência ao longo do último ano no país, de acordo com pesquisa feita em maio de 2021 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública junto ao Instituto Datafolha, com apoio do Uber. Metade das mulheres ouvidas pela pesquisa afirma que a pandemia agravou sua situação de violência, com a perda, por exemplo, da autonomia financeira.

O que fazer diante dessa realidade cruel, que parece piorar de forma galopante à medida em que a crise econômica avança? Como dar dignidade a meninas e mulheres em situação de vulnerabilidade? Como criar uma cultura que respeite as mulheres e lhes dê a mínima possibilidade de existir, sem medo e sem pudores?

Nestes 21 dias de Ativismo, convoco todas as mulheres a pensarem no que podemos fazer para minimizar os efeitos das violências causadas a todas nós, de tantas formas. Em parte, porque acredito que esse enfrentamento precisa vir do coletivo. É no coletivo, no apoio vindo de outras mulheres, que as vítimas de agressões acham coragem e força para continuar. E é no coletivo, também, que nos organizamos para cobrar o poder público por políticas públicas que acolham decentemente as mulheres em situação de vulnerabilidade.

AuthorNatália Flores

Jornalista, sou movida pela curiosidade sobre o mundo e a vida. Tenho um pé (ou quase dois) na pesquisa e na sala de aula e vejo essas práticas como transformadoras. Inquieta, problematizadora, sempre em transformação. Acredito que o mundo está aí pra ser descoberto – e questionado.

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